sexta-feira, outubro 16, 2015

Protomartyr - "The Agent Intellect"



Quarteto oriundo de Detroit, os Protomartyr acabam de editar "The Agent Intellect" o seu terceiro longa-duração que decerto elevará a banda a outros patamares em termos de público e reconhecimento, graças a um refinamento da sua sonoridade outrora assente num garage rock apunkalhado com laivos de post-punk.

Um dos trunfos dos Protomartyr assenta obviamente em Joey Casey, tanto pela sua escrita como pela forma de cantar cada vez mais apurada, sem contudo olvidar uma banda que a cada registo revela uma maior coesão e inventividade. Com um titulo retirado a uma teoria filosófica, "The Agent Intellect" espelha um certo negrume derivado ao falecimento dos pais de Joey aquando da elaboração deste disco, fator preponderante para uma escrita mais focada em tópicos como a mortalidade, o bem e o mal, religião e demónios.

Com um maior pendor para a vertente post-punk cruzada com um familiar indie-rock, que tanto parte dos Joy Division, The Fall e Pere Ubu, trilha terreno desbravado por Nick Cave, diverge por caminhos mais punk-rock dos Parquet Courts e deságua no pantanoso território habitado pelos The National, "The Agent Intellect" reflete uma maior paleta sonora que os seus antecessores assim como uma vertente melódica omissa nos anteriores registos, no entanto convêm ter atenção no futuro para não cair no tal terreno "pantanoso".


quarta-feira, outubro 07, 2015

Girl Band - "Holding Hands With Jamie"



Quiçá o disco de estreia mais aguardado deste ano (pelo menos para mim) "Holding Hands With Jamie" surge finalmente após vários ep's e singles que revelam a progressão desta banda irlandesa cujo percurso parte de uma sonoridade devedora dos Nirvana (fase "Bleach") para culminar num pós-punk bastante ruidoso de contornos industriais ao qual não se escusam de adicionar batidas tecno e cacofonia No Wave.

Diria que o maior trunfo dos Girl Band alicerça-se em criar dinâmicas que surpreendam o ouvinte, e numa altura em que parece que nada mais há a inventar em termos musicais, é com imenso agrado que ao ouvir vários temas neste disco fico espantado perante certas derivações e detalhes dos quais não estava à espera, seja através da bateria que amiúde escapa do seu conceito habitual, da guitarra a soar a um berbequim ou da forma de cantar de Dara Kiely que varia entre um tipo a tender para o ébrio a fazer um frete e a balbuciar palavreado inconsequente para num ápice desatar num berreiro desenfreado e descontrolado, como que irritado com o mundo por simplesmente a manteiga não ser de boa qualidade!

Detalhe deveras importante neste disco assenta igualmente na produção levada a cabo pela banda, aumentando e diminuindo determinadas pistas na mistura criando uma atmosfera sonora que assemelha-se a uma captação perdida num qualquer armazém abandonado com o espirito dos Einsturzende Neubauten a assombrar a gravação.

De exemplos estrepitosos mais recentes como os Yvette, Metz e Blacklisters, passando pelo experimentalismo dos Liars e Battles, até ao rock semi-industrial dos Big Black, Swans e Cop Shoot Cop, sem olvidar o registo vocal de Mark E. Smith e David Yow, tudo isto é detetável neste registo mas conjugado de uma forma criativa cuja audição requer alguma insistência (para os ouvidos mais sensíveis) revelando-se verdadeiramente compensadora no final.


quinta-feira, outubro 01, 2015

Salad Boys - "Metalmania"


Apoiados no legado da Flying Nun, editora neozelandesa que marcou o panorama indie na década de 80 com bandas como os The Chills, The Bats, The Clean e Verlaines, os Salad Boys estreiam-se com o longa duração "Metalmania" na cada vez mais influente Trouble In Mind Records.

Após um mini-lp editado em 2013 que lhes assegurou alguma notoriedade fora de portas, o trio composto por Joe Sampson, Ben Odering e Jim Nothing que curiosamente foi recrutado por David Kilgour dos The Clean como banda de apoio, surge com um admirável disco no qual é inequívoca a marca da Flying Nun mas que felizmente não se fica pela prata da casa e estende o seu rol de influências em particular ao rock alternativo americano dos anos 80, mais concretamente aos Feelies onde se inspiraram para batizar a banda, aos Television, R.E.M., Replacements, e igualmente dos 90 com piscadelas sonoras aos Lemonheads, Yo La Tengo, Pavement e Sebadoh.

Alternando temas mais jangle pop com a guitarra acústica a marcar a cadência ("Here's No Use", "Better Pickups", "Bow To Your New Sensation", "First Eight") e mais elétricos ("Dream Date", "No Taste Bomber, "I'm A Mountain", "Hit Her And Run"), o resultado final é um disco bem conseguido, roçando a excelência em vários momentos e que augura aos Salad Boys um futuro deveras promissor. Para tirar as dúvidas basta clicar aqui e desfrutar um dos melhores discos editados este ano.

quarta-feira, setembro 23, 2015

Blacklisters - "Adult"



Num recente artigo publicado na Louder Than War, os Blacklisters foram convidados a enumerar 10 bandas que influenciaram o seu som. Muito embora todos os elementos tenham um gosto eclético, a lista assenta em bandas ora de nomeada (Shellac, Jesus Lizard, Melvins, Gang of 4, Devo, Big Black, Pissed Jeans) ou mais obscuras (Kong, Hawk Eyes, Daughters) revelando desde logo, uma base sonora que assenta num universo mais noisy, pesado e matemático ao qual poderíamos acrescentar os Unsane, Helmet ou os mais recentes Mclusky, Pulled Apart By Horses, Young Widows e Dope Body.

"Adult" é o segundo registo de originais deste quarteto de Leeds, após a estreia em 2012 com o fulgurante "Blklstrs", e perante o parágrafo anterior está bom de ver que não estamos a falar de música pop mas sim de um rock ruidoso, desconfortável, massacrante, agitador, "in-your-face", que pega no ouvinte pelos colarinhos e cospe-lhe na cara enquanto os seus tímpanos explodem dada a agressividade decibélica emitida ao longo das 10 faixas que compõem este disco, ao qual não falta um toque de humor e sarcasmo patente em títulos como "The Sadness of Axl Rose", "I Knock Myself Out" ou "Power Ballad", sem esquecer o grafismo que ilustra a sua capa.

Perante tal cenário, estão mais do que informados sobre o que vão encontrar neste disco, e se os vossos estimados ouvidos ainda clamam por uma boa dose de noise-rock, então "Adult"  tratará de os saciar devidamente!

quarta-feira, setembro 16, 2015

Destruction Unit - "Negative Feedback Resistor"



Formados em inicio deste século, os Destruction Unit contam já com uma apreciável discografia e uma carreira com diversas mudanças na composição da banda da qual fez parte o malogrado Jay Reatard. "Negative Feedback Resistor" é o oitavo disco de originais e sucede ao estonteante "Deep Trip" igualmente na influente editora Sacred Bones.

Apostados em massacrar o ouvinte (no bom sentido), os Destruction Unit prosseguem com este novo registo num abalo auditivo assente na velocidade punk/hardcore, no niilismo dos Pussy Galore, no rock cavernoso dos Birthday Party, na agressividade dos Scratch Acid à qual podemos acrescentar a nova geração ruidosa dos Metz, Pissed Jeans, The Men (primeira fase) e o uso e abuso de pedais de efeitos ao estilo de uns A Place To Bury Strangers e White Hills.

"Disinfect" abre as hostilidades em crescendo para não mais dar tréguas até ao final, num turbilhão sonoro com uma bateria em espancamento contínuo, guitarras distorcidas e mergulhadas em diversos efeitos com uma ligeira inclinação para o psicadélico e vocalizações possessas entre um Nick Cave, Lux Interior e David Yow, resultando num disco que poderia ser o seguimento natural de "Horse Of The Dog" dos The 80's Matchbox B-Line Disaster.

Se todas estas referências vos seduzem, podem efetuar o download do álbum aqui e comprovar que os Destruction Unit são uma das bandas mais entusiasmantes e barulhentas da atualidade.


quinta-feira, setembro 10, 2015

Tijuana Panthers - "Poster"



Um ano após a edição do mui recomendável "Wayne Interest" que figurou na minha lista de favoritos de 2014, o trio californiano Tijuana Panthers volta à carga com "Poster", um álbum que espelha uma melhoria ao nível da composição, assim como uma maior clareza no seu som outrora mais lo-fi e mergulhado em "reverb", algo que não abandonaram de todo mas ao qual limparam alguma "sujidade".

A sua combinação de surf, garage, punk e pop resulta numa receita com bons resultados que puderam ser comprovados ao vivo na mais recente edição do Milhões de Festa a que infelizmente não pude aceder, mas estou certo que quem presenciou terá abanado a anca mercê da energia que transborda dos seus temas.

Destacar faixas de "Poster" não é tarefa fácil mas ainda assim pressente-se o espirito C-86 em "Send Down The Bombs", os The Drums de boa memória em "Front Widow Down", uma certa semelhança entre "Right And Wrong" e "Vicar In A Tutu" dos The Smiths, o aproximar aos colegas de editora Allah-Las em "Trujillo" ou o legado de Jay Reatard em "Seth Forth". Sempre que a saudade apertar por dias de Verão, basta colocar este disco e seguramente serão transportados para uma praia perto de si.


quarta-feira, setembro 02, 2015

Yo La Tengo - "Stuff Like That There"


Banda que já se tornou uma instituição, os Yo La Tengo apresentam desta feita "Stuff Like That There, um conjunto de versões e reinterpretações às quais adicionaram duas novas canções, em jeito de celebração do 25º aniversário do fascinante "Fakebook" (1990), um álbum que revelou desde então a sua mestria em transformar qualquer versão, seja popular ou obscura, numa canção com o carimbo Yo La Tengo.

Evitando a todo o custo a distorção, este disco assenta em guitarras acústicas, ocasionais twangs (por vezes a lembrar o Ry Cooder de "Paris, Texas"), baterias escovadas e vozes frágeis, contando ainda com o precioso auxilio do guitarrista Dave Schramm outrora elemento da banda na sua fase inicial.
As versões oscilam entre bandas e artistas de renome (Hank Williams, The Cure, The Lovin' Spoonful) e mais obscuros (Special Pillow, Great Plains Antietam) sempre com o cunho caraterístico do trio, com destaque para o desempenho vocal de Georgia Hubley no tema de abertura "My Heart's Not In It" (Darlene McRea) e o famoso "I'm So Lonesome I Could Cry".

No que toca a recriações, "The Ballad Of Red Buckets"do meu preferido "Electr-o-pura", "Deeper Into Movies" do igualmente sedutor "I Can Hear The Heart Beating As One" e "All Your Secrets" do mais recente "Popular Songs", são passadas pelo crivo acústico, não perdendo contudo a sua magia. No que diz respeito aos novos temas, (ambos interpretados por Ira Kaplan) oscilam entre a balada country em "Awhileaway" e "Rickety" mais aproximada da "canção-tipo YLT" que me levou a desejar por uma versão mais eletrificada da mesma.

Se dúvidas subsistiam no que diz respeito à sua diversidade estilística, critério de escolha de versões e fundamento nas edições discográficas (quiçá nos apreciadores mais recentes), este disco dissipa-as completamente, pois sempre foi assim que os Yo La Tengo regiram a sua carreira e sempre se deram bem.

quinta-feira, agosto 27, 2015

Ultimate Painting - "Green Lanes"



Nem um ano volvido após a edição do homónimo registo debutante que lhes assegurou um lugar na minha lista dos melhores de 2014, Jack Cooper (Mazes) e James Hoare (Veronica Falls) voltam a unir esforços e editam "Green Lanes", um disco que segue a linha do anterior, assente numa pop relaxada, lânguida, simplista (no bom sentido) e até um pouco soalheira.

A marca do terceiro álbum dos Velvet Underground é por demais visível, à qual se adiciona a pop dos Kinks, os Teenage Fanclub sem distorção ou o jangle-pop dos Real Estate, resultando num disco descontraído,  melódico, que não se esforça em ser algo mais que um bom conjunto de canções nas quais os protagonistas vão revezando nas vozes ao bom estilo dos The Go-Betweens, assente numa produção básica o quanto baste. Por vezes as coisas mais simples são as mais eficazes.






quinta-feira, agosto 20, 2015

La Luz - "Weirdo Shrine"



Após o cativante cartão de visita "It's Alive" na cada vez mais influente Hardly Art, as La Luz retornam com "Weirdo Shrine", um disco que reafirma a paixão que a banda nutre pelo surf-rock, sem esquecer as harmonias das girls groups da década de 60 e um aproximar ao universo de bandas como as Vivian Girls, La Sera, Frankie Rose & The Outs e Chastity Belt.

Produzido por Ty Segall que assegura uma sonoridade retro que aposto deve soar uma maravilha em vinil, "Weirdo Shrine" é um disco marcadamente surf (Dick Dale, Link Wray, The Ventures) e sendo eu um admirador deste género, é com imenso prazer que escuto a reverberação e o seu dedilhar tipico conjugado com melodias adocicadas onde não faltam coros de "ooohhs" e "aaaaahhhs" e vários jogos vocais bem engendrados, por entre letras que refletem um estado de espirito por vezes mais amargo.

Entre temas mais languidos e outro mais acelerados, as La Luz construíram um disco coeso que resulta em pleno neste Verão que atravessamos através de uma sonoridade que remete de imediato para sol, praia, festa, bebidas tropicais e a ocasional paixoneta da época.


quarta-feira, agosto 12, 2015

Sleaford Mods - "Key Markets"



Após vários anos a tentar alcançar um lugar ao sol no panorama musical britânico, a dupla Sleaford Mods finalmente atinge com este "Key Markets" o reconhecimento devido com a sua simples fórmula de baixo, bateria e vocalizações sempre a colocar o dedo na ferida em terras de Sua Majestade.

Se o anterior "Divide And Exit" conseguiu catapultar a banda para outros patamares graças a temas tão contagiantes quanto "Tied Up In Nottz" ou "Tweet Tweet Tweet", este novo registo surge como um aprimorar da sua conjugação de batidas ritmadas e baixos gordos na senda de bandas punk-funk como as E.S.G. ou Delta 5, e o discurso sempre inflamado de Jason Williamson algures entre a poesia non-stop de John Cooper Clarke e a critica mordaz de Mark E. Smith dos The Fall.

Sempre corrosivo, Williamson vai dissertando sobre várias vertentes da realidade britânica, seja a nível politico, económico mas acima de tudo social, sempre com imensos palavrões à mistura e um humor que muitos não entenderão. "Key Markets" revela-se um disco com poucas diferenças em relação aos seus antecessores, contudo podemos descortinar um maior cuidado com a produção, na elaboração das batidas e até um esforço por parte de Williamson em cantar!

As referências a várias bandas e músicos, na maioria negativas, continuam a povoar as suas letras, desta feita os visados passam por Shakin' Stevens, Von Bondies, Jack White, Rocket From The Crypt, Puff Daddy, Two Door Cinema Club, Blur e Kate Bush, mas se alguém levar a mal, decerto sai mais um "fuck off".

Sintoma de que os Sleaford Mods alcançaram a primeira divisão musical são as recentes colaborações em discos dos Prodigy e Leftfield e atuações em horário nobre em vários festivais. Fica a questão de até quando a sua sonoridade irá prevalecer de forma tão minimal e sedutora. Até lá é desfrutar temas como o cáustico"Live Tonight", o panfletário "No One's Bothered" ou o contundente "In Quiet Streets".

quinta-feira, julho 30, 2015

What Moon Things



Por sugestão de um amigo decidi investigar os What Moon Things e à primeira impressão calculei que teria escrito mal o seu nome pois tanto a capa como os títulos das faixas remetiam para paragens que não me seduzem por aí além. No entanto decidi ouvir e aos poucos fui percebendo o entusiamo que a banda tem criado à sua volta.

Oriundos de Nova Iorque, o trio composto por Jake Harms, John Morisi e Eric Sowalskie inciaram a sua atividade em 2012 tendo editado em Junho de 2014 o homónimo registo debutante que deambula por terrenos outrora calcorreados pelos The Cure, Walkmen, Slint, Codeine, Pinback ou Modest Mouse.

Nesta diversidade de boas influências assenta a mais valia desta banda que em temas como "Vampire", "The Astronaut" ou "Staring At The Radio" tanto remetem para uma face mais sombria do pós-punk, um indie rock mais esquizofrênico graças à vocalização de Harms, guitarras ora intimistas ora abrasivas e uma cadência slowcore em vários momentos que julgava ter desaparecido.
Enquanto não surgem mais novidades dos WMT aproveitem para ouvir um disco de uma banda que acredito terá muito mais reconhecimento num futuro próximo.


segunda-feira, julho 20, 2015

White Reaper - "White Reaper Does It Again"


Após o excelente cartão de visita com o "White Reaper Ep" publicado o ano passado, fiquei a salivar pelo álbum de estreia desta formação oriunda de Louisville no Kentucky, que entretanto adicionou o teclista Ryan Hater ao trio original composto por Tony Esposito (voz, guitarra) e os gémeos Sam e Nick Wilkerson (baixo e bateria respetivamente). "White Reaper Does It Again" confirma em pleno as expetativas que tinha em relação a esta banda como uma pandilha que apenas quer "rockar" e o resto é conversa.

Com uma sonoridade que pisa os terrenos garage-punk de Jay Reatard, Ty Segall, Bass Drum of Death ou Fidlar, sem esquecer a cartilha dos Ramones e a power-pop dos The Cars, este é daqueles discos para ouvir em alto volume, de preferência numa viagem de carro com amigos de longa data a caminho de um destino qualquer longe da realidade cotidiana.

Assente numa produção a puxar tudo para o 11, "White Reaper Does It Again" não é um disco original (nem o pretende ser), mas assegura ao ouvinte, em particular os que já passaram a adolescência e cujos ouvidos já estão calejados, um regresso ao passado quando as guitarradas eram assimiladas como forma de mandar tudo às urtigas. Temas como a abertura explosiva de "Make Me Wanna Die", o "Just What I Needed" dos Cars revisitado em "Pills", os Weezer de boa memória em "Sheila" ou o ramoniano "Wolf Trap Hotel" são alguns exemplos da construção musical dos White Reaper que conjugando velocidade punk, sujidade garage-rock e refrões punk-pop criaram até ver o melhor "fuck-off" álbum deste ano.


quarta-feira, julho 08, 2015

Jacco Gardner - "Hypnophobia"



"Hypnophobia" é o segundo álbum do multi-instrumentalista holandês Jacco Gardner que recentemente esteve em Portugal a promove-lo, tendo previamente passado pela edição de 2013 do Milhões de Festa.

Com uma sonoridade bem assente numa pop psicadélica a roçar o barroco na qual os teclados predominam, este novo disco abre com "Another You" a recordar os saudosos The Bees, prossegue com "Grey Lanes" um instrumental ideal para filmes de culto da década de 60, pisca o olho à folk-pop em "Brightly" e desliza para "Find Yourself" que poderia ter a assinatura dos Temples, The Coral ou Super Furry Animals, resultando perfeita numa qualquer mixtape de Verão.

"Face To Face" revela a devoção a Syd Barrett, enquanto "Outside Forever" soa a cruzamento entre os The Zombies e os Air. Os contagiantes oito minutos de "Before The Dawn" inspiram-se no legado de bandas como os Stereolab e Broadcast, ao passo que o tema-titulo estica-se para lá da convencional duração pop num remoinho psicadélico espacial, encerrando em beleza com "All Over", novamente um instrumental no qual Gardner explora várias tonalidades dos seus teclados vintage, num disco que apesar de soar a pérola perdida da época áurea do psicadelismo dos 60, possui argumentos mais do que suficientes para obter a devida atenção e devoção.


quinta-feira, junho 25, 2015

Leon Bridges - "Coming Home"


"Coming Home" é o registo de estreia na Columbia Records do jovem texano Leon Bridges, um apaixonado pela soul e R&B de meados da década de 60 que já lhe valeu comparações a Otis Redding, Sam Cooke, Marvin Gaye ou ao colega de editora Raphael Saadiq.
Com uma voz aveludada e melodias de fácil audição, Bridges contou com o precioso auxilio de Josh Block e Austin Jenkins dos White Denim como banda de apoio e produção, resultando num disco com um forte travo à época dourada da soul onde não faltam os teclados à Booker T., coros femininos e uma eficiente seção de metais. Vagueando entre baladas que em nada destoariam no cancioneiro da falecida Amy Winehouse, R&B para bater o pezinho que o Nick Waterhouse tão bem explora, aproximação aos Black Keys do galardoado "Brothers" e gospel no arrepiante "River" que encerra este disco, tudo foi pensado ao pormenor e a apontar algum defeito a "Coming Home", será apenas por soar tão deslocado do tempo e por faltar um toque mais pessoal que estou em crer surgirá com o crescimento de Bridges como músico.


sexta-feira, junho 19, 2015

Spray Paint - "Punters On A Barge"


Segundo álbum dos texanos Spray Paint com selo da editora australiana Homeless Records, "Punters On A Barge" revela uma banda imersa nas sonoridades ruidosas da no wave e post-punk com apontamentos de noise-rock e até uma certa aura industrial.

Com uma construção musical assente em ritmos repetitivos, guitarras dissonantes e vocalizações a tender para o agressivo, a referência aos Jesus Lizard é óbvia, no entanto, creio que este disco incide mais nos primórdios dos Sonic Youth (com semelhanças vocais a Lee Ranaldo) e segue um trilho aproximado aos Cold Pumas e Yvette duas das mais estimulantes bandas da atualidade.

Num total de 10 faixas que podem ser escutadas aqui, o trio Spray Paint demonstra  em "Punters On A Barge" criatividade suficiente para cativar os ouvidos mais rotinados a estas andanças mais "noisy"e deixam em aberto um carreira para seguir com atenção.



segunda-feira, junho 08, 2015

Someone Still Loves You Boris Yeltsin - "The High Country"



Formados em meados da década passada em Springfield, Missouri, os Someone Still Loves You Boris Yeltsin surgiram em plena euforia da blogosfera e graças a isso conseguiram algum reconhecimento que levou a um contrato com a sempre recomendável Polyvinyl. "The High Country" é já o seu quinto registo de originais e após dois discos medianos "Let It Sway" (2010) e "Fly By Wire"(2013) retornam com algumas novidades sonoras ao investir mais na vertente rock muito embora a costela pop nunca deixe de estar presente.

"Line On You" abre este disco numa toada grunge-pop na senda dos Weezer e Superchunk, para logo de seguida atacarem com a orelhuda "Step Brother City" algures entre os Strokes e os Beach Boys, onde não faltam os inevitáveis "oooohhs". "Goal Mind", "Full Possession Of Her Powers" e a delicada " "Madeline" são faixas tipicamente indie-jangle-pop, tendência com que a banda foi alicerçando grande parte da sua discografia.

"What I Won" aventura-se em terrenos shoegaze e dream-pop a recordar os seus colegas de editora Headlights. Revelam músculo rockeiro com "Trevor Forever" novamente a inclinar para o território dos Weezer mas também dos Pixies e dos recentes Paws. A finalizar temos a power-pop na linha dos Telekinesis e Nada Surf em "Song Will" e "Total Meltdown", um pouco mais adocicada em "Foreign Future" e um aproximar à escola sónica de "Magnet's New Summer 'Do", concluindo assim um disco que pode resultar em pleno como banda sonora deste Verão.


quarta-feira, maio 27, 2015

Death And Vanilla - "To Where The Wild Things Are"


Banda que me escapou ao radar desde a sua formação em 2010, o duo sueco composto por Marleen Nilsson e Handers Hansson, produzem sob a designação de Death and Vanilla uma sonoridade retro-futurista psicadélica assente nas experiências radiofónicas da BBC na década de 60, em bandas-sonoras vintage, em grupos como os United States of America, Stereolab, Broadcast, no dream-pop dos Mazzy Star, Au Revoir Simone, Beach House e Still Corners, partilhando igualmente um universo similar com os recentes Gulp, Virginia Wing e Soundcarriers.

Apesar do seu som soar deveras familiar, estamos perante um disco que em nada fica a dever às suas influências, embora por vezes estas fazem-se notar em demasia. "To Where The Wild Things Are" foi gravado com parcos meios mas isso não impediu a banda de criar um disco com uma rigorosa produção com a voz de Marleen imersa em reverb, os teclados recheados de pormenores e uma guitarra fuzz a surgir a espaços.

Temas como "Necessary Distortions" (que titulo tão Stereolab!), "California Owls" (olá Beach Boys),  a açucarada "Time Travel" ou "The Hidden Space" (olá Silver Apples) são alguns exemplos de um disco que cria vício e decerto fará parte de várias listas dos melhores deste ano.



quarta-feira, maio 20, 2015

Thee Oh Sees - "Mutilator Defeated At Last"



Após a noticia em finais de 2013 que a banda faria uma merecida pausa em termos de edições discográficas e concertos que acabou por revelar-se infundada, os Thee Oh Sees não dão tréguas e retornam com este monstruoso "Mutilator Defeated At Last", um álbum bem mais musculado que o anterior "Drop" e digno sucessor do poderoso "The Putrifiers II" (2012).

Composto por nove faixas com uma duração total de pouco mais de 30 minutos, "Mutilator..." abre as hostilidades em grande com "Web", um tipico tema do seu cancioneiro no qual psicadelismo, garage rock, batida kraut e os habituais gritos de John Dwyer fazem-se notar. O terramoto sonoro de "Withered Hand" soa a Black Lips a tentar imitar os Blue Cheer ou Black Sabbath e aposto que ao vivo deve criar fendas nas paredes!

O melodioso "Poor Queen" numa vertente aproximada ao garage pop abre caminho para "Turned Out Light" desta feita a piscar o olho ao southern-boogie mas sem descambar. O devaneio sónico de "Lupine Ossuary" pode ser encarado como a continuação de "Lupine Dominus" tema maior de "The Putrifiers II". A roçar os quase 7 minutos de duração "Sticky Hulks" é uma pedrada psicadélica com os teclados a contrabalançar os espasmos guitarrísticos, seguido do instrumental "Holy Smoke", igualmente numa toada psicadélica mas numa abordagem mais folky. Logo de seguida somos abanados pelo garage-punk de "Rogue Planet" e o encerramento em beleza fica a cargo de "Palace Doctor".

Mais uma vez os Thee Oh Sees revelam-se como uma das poucas bandas da atualidade em que podemos apostar que nunca farão um disco mau, e isso nos tempos que correm vale muito!



quarta-feira, maio 06, 2015

Mikal Cronin - "MCIII"



Dois anos volvidos após a edição de "MCII",  o talentoso compositor Mikal Cronin regressa com o seu terceiro registo a solo "MCIII" na histórica editora Merge, tendo desta feita arriscado amplificar ainda mais o seu som com uma produção mais elaborada e maior atenção aos arranjos, contudo não fiquem com a ideia de Cronin ter virado um cantor pop com os olhos postos nos tops, a sua música embora acessível talvez figurasse na MTV da década de 90 aquando da euforia grunge e o rock alternativo era a nova mina a explorar.

Dividido em duas partes, "MCIII" apresenta na face A algumas das canções mais apelativas que Cronin já compôs, trilhando terrenos próximos aos Lemonheads, Built To Spill, Rogue Wave, The Shins e a pop californiana dos anos 60. Temas como "Made My Mind Up" ou "Feel Like" são exemplos máximos da sua mestria combinando refrões orelhudos, guitarras acústicas e distorcidas, violinos flutuantes e uma voz adocicada. O lado B consiste num relato sobre uma fase da sua vida aquando adolescente em que teve de se mudar para outra zona do mapa americano e os sentimentos que daí advieram, num relato deveras sincero em seis andamentos. Mais rebuscada, esta face apresenta temas ora "rockeiros" ("Gold", "Ready"), baladas com piano, cordas e sopro a sobressair ( "Alone", "Different") ou mais acústicos ("Circle", "Control").

Cronin estabelece-se definitivamente ao terceiro álbum como um músico a merecer os rasgados elogios que tem granjeado junto da critica especializada, mas acima de tudo, é já um nome com créditos firmados numa discografia exemplar.