quinta-feira, julho 14, 2016

Bambara - "Swarm"


Recordo-me de ter ficado deveras impressionado com a atuação dos Bambara aquando da sua passagem pelo Porto em 2013 como banda de suporte aos A Place To Bury Strangers, e desde então tenho aguardado pelo sucessor do debutante "Dreamviolence". "Swarm" foi um parto complicado tendo em conta várias contrariedades que a banda sofreu, no entanto, souberam dar a volta e com o precioso auxilio na produção de Ben Greenberg (Uniform) e o resultado final é deveras compensador.

Desde logo o maior destaque neste registo incide no espaço dado à voz de Reid Bateh, desta feita bem mais audível e a revelar-se uma enorme surpresa. Qual filho bastardo de Nick Cave à procura de reconhecimento, Reid e as suas letras tingidas a negro são agora bem mais perceptíveis e com isso a banda alcançou uma intensidade que outrora encontrava-se submergida em ruído.
Todavia, não fiquem com a ideia que a banda abandonou o seu característico noise-rock / post-punk em detrimento de baladas sobre assassinos, nada disso, prosseguem dentro da mesma matriz contudo o seu som é agora mais nítido e a utilização de loops mais criteriosa.

Ao longo das doze faixas que compõem "Swarm" detetamos a influência dos The Birthday Party, Swans, Bad Seeds, Sonic Youth, Scientists, Gallon Drunk, Cramps, Gun Club ou semelhanças com os Disappears, Destruction Unit, Iceage e até os Girl Band, pontuadas por guitarras a roçar o psychobilly, o cowpunk ou em constante frenesim, ambiências industriais por vezes a deslizar para território gótico, num todo que resulta num disco denso, claustrofóbico, rico em texturas, ao qual voltamos com o mesmo prazer.

quinta-feira, junho 30, 2016

Swans - "The Glowing Man"


Com uma carreira que ascende a mais de 30 anos, encerra-se com este "The Glowing Man" mais um capitulo na vasta e turbulenta discografia dos Swans sempre com Michael Gira a comandar as operações. Esta nova fase que se iniciou em 2010 com "My Father Will Guide Me Up A Rope To The Sky", sucedendo os duplos registos "The Seer" e "To Be Kind" é porventura a sua melhor etapa muito por culpa dos excelentes músicos que rodearam Gira mas também de um amadurecimento de ideias que o capitão desta embarcação conseguiu levar a cabo ao longo desta década.

"Cloud of Forgetting" abre as hostilidades com Gira a clamar no final "I Am Blind" após uma tempestade sonora que não destoaria no cancioneiro dos Godspeed You Black Emperor. Seguem-se os 25 extasiantes minutos de "Cloud of Unknowing", repletos de crescendos e momentos de acalmia. Basta atentar nos títulos das 8 faixas que compõem este registo para facilmente detetar estarmos perante mais um disco conceptual pleno de questões existenciais, ao qual não faltam alusões a religião, sexo, violência, droga e politica e espiritualidade.

"The World Looks Red/The World Looks Black" assenta num dos truques mais usados pelos Swans no qual a repetição de certas frases ecoam no nosso cérebro numa espécie de mantra do qual não temos escapatória. A curta (segundo os cânones da banda) e melódica "People Like Us" resulta numa espécie de intervalo para respirar um pouco ante o sufoco que se avizinha com "Frankie M" dotado de uma primeira parte em registo coral fantasmagórico algo extensa até ao irromper das guitarras num riff que soa a Mono a tentar fazer uma versão do "Revolution" dos Spacemen 3, surgindo posteriormente Gira a cantar sobre drogas numa toada mais descontraída do que lhe reconhecemos, para num ápice a banda voltar à carga com toda a pujança que se lhe reconhece.

A polémica "When Will I Return" interpretada por Jennifer, esposa de Gira, resulta num exorcizar da experiência traumática de violação que foi alvo, algo que poderia ser encarado de uma forma positiva, não fossem os acontecimentos recentes com a cantora Larkin Grimm a acusar Gira do mesmo, algo que foi refutado pelo casal. (A aguardar pelos próximos capítulos).

Prosseguimos para mais um tour-de-force com "The Glowing Man", outro exemplo da mestria musical desta banda que sob a batuta de Gira vai acrescentando ou subtraindo camadas, ora com sucessivas explosões sonoras, mudanças de ritmo inesperadas ou serenando os ânimos quando necessário, enquanto Gira diversifica o seu registo vocal de acordo com a toada reinante.

O apropriado e imponente "Finally, Peace" encerra as duas horas de duração deste disco que confirma uma vez mais que os Swans com esta formação criaram um território sonoro muito próprio e do qual não sabemos como Gira vai dar a volta. Seja como for, esta sucessão de discos fica desde já para a história.


quarta-feira, junho 29, 2016

Songs From The Old House Vol.2

Edu (Mouco) e Mar Superior apresentam o novo volume das "Songs From The Old House", uma seleção musical que porventura poderá levar ao verter de uma sorrateira lágrima, ao ponderar no que porra andamos aqui a fazer, a recordar alguns momentos da vida, a fumar um pensativo cigarro e muito provavelmente a uma certa sonolência. Sit back and enjoy!


domingo, junho 05, 2016

Edu (Mouco) e Mar Superior apresentam o primeiro volume das "Songs From The Old House", uma mixtape assente em canções intimistas, ideais para servir de banda sonora a momentos de relaxe, introspecção ou embalo. Sit back and enjoy!

01."Something On Your Mind" - Karen Dalton 02."You & Your Sister" - This Mortal Coil 03."Northern Sky" - Nick Drake 04."We Dance" - Pavement 05."Ocean Rain" - Echo & The Bunnymen 06."Adoration" - Cranes 07."Cattle And Cane" - The Go-Betweens 08."Under The Milky Way" - Grant-Lee Phillips 09."Some Candy Talking" - Richard Hawley 10."Avalanche" - Dan Michaelson 11."Bury Me Deep In Love" - The Triffids 12."Your Ghost" - Kristin Hersh 13."It's Up To You" - Shop Assistants 14."For The Damaged" - Blonde Redhead 15."Distortions" - Clinic 16."Hotcha Girls" - Ugly Casanova 17."N.I.T.A." - Young Marble Giants 18."Loneliness Is A Gun" - House Of Love 19."Desire As" - Prefab Sprout 20."True Love Will Find You In The End" - Headless Heroes

quarta-feira, junho 01, 2016

The Numerators - "Strange"



Após alguns anos de edições caseiras e ocasionais 7" partilhados com outras bandas, os The Numerators lançam o seu primeiro álbum oficial "Strange", um registo que decerto será do agrado de quem ainda aprecia um rock de garagem imbuído de um espírito punk, acrescido de nuances psicadélicas e guitarradas surf.

Liderados por Sammi e Burgers Rana, que apesar de distantes (Sammi em Austin, Texas e Burgers em Brooklyn, N.Y.) conseguem unir esforços para em conjunto com o baixista Andrew Chavez edificar um conjunto de canções, resultando num sólido registo de estreia que contou com a masterização a cargo de Oliver Ackerman dos A Place To Bury Strangers com o qual Burgers trabalha na construção de pedais de efeito.

Por entre referências a Dick Dale, Sonics, Ty Segall, Thee Oh Sees, Wytches ou Bass Drum of Death, "Strange" soa no entanto a uma banda capaz de pegar numa matéria já bastante utilizada e moldar em canções plenas de ritmos contagiantes que ao vivo surtirão um efeito ainda mais vibrante. Destacar faixas é tarefa ingrata dada a consistência dos 10 temas que o compõem, ainda assim não resisto em referir a surfalhada alucinada de "Wastoid", o festim de "Chencho", a aproximação aos Cramps de "Hi, I'm Kirk. Fuck You", a cavalgada furiosa de "Hope" ou "Feeel" imersa em ondas de psicadelismo.

sexta-feira, maio 27, 2016

Noise Rock Mixtape Vol.2

01."Dead Joe" - Birthday Party 02."Asbestos Lead Asbestos" - World Domination Enterprises 03."Battered Children Twirling Battered Batons" - The Union of a Man and a Woman 04."Barbarian Boy" - Lightning Bolt 05."Headless" - Hella 06."Ultrabitch" - Lobster 07."Agony Flesh" - New Collapse 08."Identity Exchange Program, Rectum Return Policy" - Locust 09."Quitter" - Cherubs 10."Pigs Wear Blue" - XBXRX 11."Uvula" - Dmonstrations 12."Big Lies" - Uzeda 13."Camero" - Hammerhead 14."Cannibal" - Scratch Acid 15."Caught Licking Leather" - Pissed Jeans 16."Lazy Slave" - Dope Body 17."Old Skin" - Young Widows 18."Tumor" - His Electro Blue Voice 19."Little Hitlers" - Arsenal 20."Auto-Fuck" - Zeni Geva 21."He's My Thing" - Babes In Toyland 22."In My Head" - Girl Band 23."I Want To Take You Outside" - Ligament

sexta-feira, maio 13, 2016

The Limiñanas - "Malamore"



Com um notório crescendo de popularidade, o qual foi evidente na sua passagem pelo Indouro Fest (2015), o trajeto dos gauleses Limiñanas tem sido trilhado desde 2009 assente numa sonoridade onde cabem os Velvet Underground e os seus descendentes The Jesus & Mary Chain, Serge Gainsbourg, 60's garage-rock de contornos psicadélicos, bandas-sonoras vintage e essências de world music, não se escusando para tal em utilizar diversos idiomas (francês, inglês, espanhol, italiano) ou optar por instrumentais para melhor explorar o seu som. "Malamore" não se afasta destas premissas muito embora denote uma banda mais focada em não se desviar tanto da sua rota como no anterior "Costa Blanca".

Como é habitual a influência cinematográfica é algo de que a banda não abdica e o espectro de Morricone, Bacalov e John Barry entre outros, paira em temas como "Athen I.A.", "El Sordo" e "Paradise Now", este último a dever muito a "Midnight Cowboy". Confesso uma preferência vocal pelos temas francófonos em particular pelo tom narrativo de Lionel  de que são exemplo "El Beach", "Prisunic" com um teclado irresistível e "Kostas" adornado por um bouzouki. Na vertente feminina destaque para a balada sensual "Garden of Love" a cargo de Marie com o baixo de Peter Hook a dar um colorido mais pop, e o acelerado "Dahlia Rouge". Os restantes temas interpretados em inglês "Malamore" e "The Dead Are Walking" perdem algum impacto quiçá por uma questão de sotaque.

Para o final fica reservada a cereja no topo do bolo na forma de uma vertiginosa viagem de comboio de seu nome "The Train Creep A-Loopin" com um infernal Wah-Wah a conduzir uma locomotiva auxiliada pelo multi-instrumentalista Pascal Comelade com os quais a banda editou o ano transacto o recomendável "Traité de Guitarres Trioléctiques". Trés bon!


sexta-feira, abril 29, 2016

Holy Wave - "Freaks Of Nurture"


Oriundo de Austin, Texas, os Holy Wave editaram recentemente "Freaks Of Nurture" o seu segundo registo de originais, sucedendo ao sedutor "Relax" que apresentaram em concerto por terras lusas. Não se desviando da linha que têm vindo a trilhar desde 2008, os Holy Wave assentam a sua sonoridade num psicadelismo com inclinação pop inspirado nos Byrds, Love, Doors, ao qual acrescentam o típico fuzz do garage-rock dos conterrâneos 13Th Floor Elevators, não se escusando em entrar por territórios dream-pop e shoegaze.

Prosseguindo na aposta em compor canções mais lânguidas do que é usual nestes territórios, (quiçá o calor californiano a fazer das suas), os Holy Wave sabem bem levar a sua água ao moinho e o resultado final são temas povoados de teclados coloridos, nos quais as guitarras ora ondulam num registo surf-jangle ou arrebitam com o fuzz, o baixo e bateria cumprem a função de manter o ritmo e a voz ecoa de uma forma preguiçosa.

A envolvente faixa de abertura "She Put a Seed In My Ear" soa a um cruzamento entre os Real Estate, Allah-las e The Seeds, ao passo que "Wendy Go Round" poderia ser da autoria dos Psychic Ills, já "Western Playland" não destoaria no "Carnival of Light" dos Ride. O ritmo acelera com "You Should Lie" abrandando de seguida com a balada narcótica "California Took My Bobby Away". O espírito dos Spacemen 3 e Stereolab pode ser detetado em "Air Wolf", "Our Pigs" convida ao menear da anca, "Sir Isaac Nukem" tem o carimbo "trippy", enquanto que "Magic Landing" encaixa perfeitamente numa compilação de celebração do Halloween. A viagem termina com "Minstrel's Gal" com adorno de cítara para dar aquele toque especial a um disco que coloca os Holy Wave a um passo de atingir o escalão principal desta nova vaga psicadélica, algo totalmente merecido.


quarta-feira, abril 27, 2016

Noise Rock Mixtape vol.1

01."Kill Yr. Idols" - Sonic Youth 02."Woly Boly" - Butthole Surfers 03."Plaster Casts of Everything" - Liars 04."A Pack Of Wolves" - Black Eyes 05."Sex Automata" - Ex Models 06."The Ugly American" - Big Black 07."Wet Blanket" - METZ 08."Ego Death" - A Place To Bury Strangers 09."Upside Down" - The Jesus & Mary Chain 10."I Feel Insane" - Daisy Chainsaw 11."T.F.A." - Silverfish 12."Thumbscrews" - The Jesus Lizard 13."Swords" - Blacklisters 14."Falco vs. The Young Canoeist" - Mclusky 15."Twenty Iron Men" - Wives 16."Herculoid" - Made Out Of Babies 17."Last Man Standing" - Unsane 18."B1" - Part Chimp 19."Fever Dreaming" - No Age 20."You Made Me Realise" - My Bloody Valentine

sexta-feira, abril 22, 2016

Future Of The Left - "The Peace and Truce Of The Future of The Left"


O quinto álbum dos galeses Future Of The Left liderados pelo carismático Andrew Falkous (Falco) não possui grandes diferenças em relação aos seus antecessores para bem da nossa sanidade auditiva, dada a sua fórmula vencedora assente num noise-rock bem esgalhado, povoado de letras corrosivas salpicadas de humor e cinismo.

Desta feita, o maior destaque de "The Peace and Truce..." recai num maior protagonismo da secção rítmica mercê de uma produção "Albiniana" na qual baixo e bateria fustigam o ouvinte sem piedade enquanto Falco vai cuspindo a sua bílis e estrangulando a sua guitarra, algo bem patente na brutal faixa de abertura "If AT & T Drank Tea What Would The BP Do" com uma linha de baixo reminiscente de um "Kerosene" dos Big Black.

Quiçá um pouco mais agressivo resultado de um retorno ao formato trio, este novo registo financiado em poucas horas pelos seus inúmeros admiradores, demonstra uma banda com uma coesão notável, capaz de criar dinâmicas que balançam entre o rock matemático e riffs mais imediatos, vocalizações que alternam entre a narrativa, a gritaria desenfreada e até o refrão cantarolável, alicerçadas na tal produção seca mas deveras poderosa, de que são exemplo faixas tão contundentes quanto ""The Limits of Battleships", "Eating For None", "Reference Point Zero" e "In A Former Life".

O trilho traçado inicialmente por Falco e o baterista Jack Egglestone no seminais Mclusky prossegue em grande forma com uns Future Of The Left cada vez mais apurados e senhores da sua carreira que ao contrário do titulo do seu novo disco não dão tréguas em abalar os nossos ouvidos e enquanto existirem motivos de sobra para soltar a sua raiva, também não teremos paz!



terça-feira, abril 12, 2016

The Goon Sax - "Up To Anything"


Perante o cenário de um trio australiano praticante de uma "bedroom pop" composto por dois jovens compositores e uma baterista, obviamente que as comparações com os The Go-Betweens serão inevitáveis, se acrescentarmos o importante pormenor que um deles é descendente direto de Robert Forster então não há como escapar a serem vistos como os sucessores naturais dos autores de "Streets of Your Town" e "Bachelor Kisses".

Neste seu registo debutante, Louis Forster, James Harrison e Riley Jones não escondem a influência que os supra-citados possuem na sua sonoridade, mas o que mais impressiona nos The Goon Sax (nome foleiro) é desde logo a capacidade em compor canções do mesmo quilate (da primeira fase, não exageremos), na qual podemos vislumbrar a marca dos Byrds e Jonathan Richman, poderiam até figurar na famosa cassete C86 ou fazer parte do catálogo da influente Flying Nun, tudo boas referências como podem constatar e um sinal inequívoco de estarmos perante uma banda que apesar da devoção a vocês sabem quem, de uma forma tão natural consegue arrebatar com as suas simples melodias, letras juvenis e uma atitude de "não sabemos tocar melhor mas também não nos incomodamos com isso" que remete igualmente para os Beat Happening ou The Pastels.

Creio que será escusado acrescentar muito mais a esta crítica, aconselho-vos apenas a ouvir os 12 temas que compõem "Up To Anything" e deleitarem-se com pérolas pop como "Sometimes Accidentally", "Telephone", "Home Haircuts", "Sweaty Hands" e a canção mais viciante do ano em "Boyfriend". Embora no território musical este ditado não raras vezes soe desfasado da realidade, neste caso podemos mesmo afirmar que quem sai aos seus não degenera e que a par dos Twerps e Dick Diver a pop australiana está de se lhe tirar o chapéu!

quinta-feira, abril 07, 2016

Tacocat - "Lost Time"



"Lost Time" é o terceiro longa-duração dos Tacocat, quarteto oriundo de Seattle que tem vindo a conquistar o seu lugar ao sol mercê de um punk-pop deveras cativante, no qual vislumbramos com facilidade as suas influências mas que no entanto revelam mestria para baralhar e voltar a dar, seja através dos seus refrões que não descolam dias após a audição ou de riffs tão simples quanto eficazes.

Tendo como ponto de partida o punk primário dos Ramones, os Tacocat passam pelo indie-pop dos Shop Assistants e Primitives, mordiscam a sensibilidade melódica com travo punk das Shonen Knife, revelam a sua devoção ao college rock dos 90 (Magnapop, Breeders, That Dog) e obviamente acercam-se das Vivian Girls, Best Coast ou às colegas de editora na Hardly Art, La Luz e Chastity Belt.

"Lost Time" abre com o power-pop de "Dana Katherine Scully" tributo à famosa personagem da série "Ficheiros Secretos". Desconheço o que significa "FDP" (embora em português fosse evidente) mas o seu refrão "FDP don't fuck with me" é algo para cantarolar sem pudor tal como "earthquake, tsunami, there's still no place i'd rather be" na explicita "I Love Seattle". Os que trabalham aos fim-de-semana já possuem um hino para os consolar devidamente em "I Hate The Weekend" e por falar em laborar "You Can't Fire Me, I Quit" poderia ter como autoras as gémeas Deal.

Numa banda composta por três mulheres e um elemento masculino é natural que certos tópicos venham à baila como a discriminação, a arrogância masculina ou a sexualidade de que são exemplos "The Internet", "Men Explain Things To Me" e "Plan A, Plan B", no entanto as principais mensagens que a banda transpira são de auto-confiança, positivismo, humor e acima de tudo, diversão sendo "Night Swimming" o exemplo perfeito. Até ver o mais forte candidato a disco de Verão 2016!


quarta-feira, março 30, 2016

Breve sumário da música alternativa em Portugal

Breve sumário da música alternativa em Portugal é uma mixtape representativa da produção "indie" nacional desde a sua génese na década de 80 até ao presente. Alerta: contêm vários instrumentais, muitas cantadas em inglês e escassas em português.

sexta-feira, março 25, 2016

Mugstar - "Magnetic Seasons"



Com uma carreira que remonta a 2003, os Mugstar têm vindo gradualmente a angariar a reputação de uma das bandas mais criativas do espectro do psicadelismo deste século, mercê das suas performances ao vivo e de não se limitarem a copiar os baluartes do género. Muito embora a pegada dos Hawkwind e Pink Floyd seja evidente na sua sonoridade, fortes ecos dos krautrock fazem-se igualmente sentir, para além de riffs à Black Sabbath, ondulações típicas do denominado post-rock, a cadência de uns Spacemen 3 e semelhanças sonoras com os Föllakzoid ou Wooden Shjips.

Resultado de terem possivelmente mais tempo em estúdio, os de Liverpool não se fizeram rogados e editam desta feita o ambicioso "Magnetic Seasons" como um duplo álbum na Rock Action Records pertença dos escoceses Mogwai. Dada a qualidade técnica evidente dos seus elementos, os Mugstar aproveitam para expandir todo o seu potencial criativo (não confundir com virtuosismo técnico bacoco) ao longo de 9 faixas que alternam entre os 5 e 18 minutos de duração, nas quais empregam dinâmicas bem engendradas de forma a que os temas possuam uma fluidez natural mesmo picando o ponto em diversos territórios de que são exemplo " Unearth", "Flemish Weave" ou "Time Machine".

Mesmo sendo apreciador de temas que me transportam a outras dimensões, ainda assim a banda não consegue evitar uma certa saturação em particular na segunda metade do disco no qual a vaga cósmica está demasiado presente fazendo com que o disco vá perdendo fulgor até seu término com o xamânico "Ascension Island". Acredito que ao vivo esta vertente ganhe até outra vida mas em disco acaba por soar a mera desbunda na qual ninguém se atreveu a parar de tocar ou simplesmente a abrir os olhos. Quiçá resultará melhor sob o efeito de certas substâncias? Fico a aguardar o regresso a Portugal para tirar as dúvidas.


sexta-feira, março 18, 2016

Cavern Of Anti-Matter - "Void Beats/Invocation Trex"



Após a dissolução/hiatus indefinido dos seminais Stereolab, foi da parte de Laetitia Sadier que obtivemos mais novidades musicais, no entanto o seu ex-marido Tim Gane não deixou de estar ativo embora mais entretido com produções para bandas-sonoras e instalações sendo que de uma dessas experiências sonoras em Berlim onde atualmente Tim reside, resultou a formação de uma nova banda com a inclusão do ex-baterista dos Stereolab Joe Dilworth e do músico germânico Holger Zapf.

"Void Beats/Invocation Trex" surge no mercado após a edição de um mini-álbum e uns quantos 12" e revela uma banda que como seria de esperar possuí no seu ADN muito do que tornou a sua anterior banda um caso único mas explora igualmente outros territórios num disco algo extenso mas rico em pormenores ao qual não faltaram à chamada os colaboradores de longa data Sonic Boom e Sean O'Hagan.

"Tardis Cymbals" abre as hostilidades com os seus quase 13 minutos de duração conduzida pela batida motorik e eletrónica cósmica tão marcantes do movimento krautrock. Se a marca dos NEU! se faz sentir ao longo do disco, igualmente a eletrónica pioneira dos Kraftwerk tem um peso considerável e para tal basta atentar em faixas como "Blowing My Nose Under Close Observation" que pisca o olho a Afrika Bambaataa, "Insect Fear" e "Pantechnicon".  O denominado electro dos anos 80 também dá um ar da sua graça em "Hi-Hats Bring The Hiss", "Echolalia" e belisca na EBM em "Void Beat".

"Melody In High Feedback Tones" poderia figurar em qualquer disco dos Stereolab dado o seu cariz mais pop e a pedir a voz de Laetitia, no entanto as poucas vozes que se fazem representar neste disco são de Bradford Cox (Deerhunter) em "Liquid Gate" um curto tema pop de contornos psicadélicos, e de Sonic Boom na leitura de um manifesto em "Planetary Folklore" um desvario cósmico com diversas manipulações vocais. Por fim não poderiam faltar as incursões ao território das bandas sonoras e library music em "Black Glass Actions" e a derradeira faixa "Zone Null".

Sem estar previsto Tim Gane volta a fazer parte de um grupo e pela amostra deste disco, estou em crer que será algo da qual retira imenso prazer em o fazer e quem ganha são os nossos ouvidos.



quinta-feira, março 10, 2016

Big Ups - "Before A Million Universes"



Após o bem recebido registo de estreia "Eighteen Hours of Static", os Big Ups oriundos de Brooklyn, retornam com "Before A Million Universes" na cada vez mais proeminente Exploding In Sound Records. Se no disco debutante a costela post-hardcore era por demais evidente, neste novo disco a banda revela uma maior diversidade sonora e uma dinâmica na construção dos seus temas que merece ser louvada.

Muito embora os Big Ups sigam a cartilha do género cujos fundamentos poderemos encontrar em inúmeras bandas da Dischord com os Fugazi na cabeça do pelotão, desta feita a banda tenta soltar-se das amarras dessa onda ao inclinar-se para o território dos Slint, Rodan, Unwound e até os primórdios dos June of 44, evitando a colagem demasiado óbvia a esta vertente.

Com uma abertura a pender para os Refused em "Contain Myself", desde logo os Big Ups desvelam os pilares em que este disco assenta: vocalizações entre o narrativo e a gritaria, dinâmicas de guitarra que ora soam melódicas ora explodem com todo o fulgor e uma secção rítmica que não se limita a seguir o texto tendo abertura para soltar-se quando é necessário. Acima de tudo, o que é manifestado neste disco é uma obra coesa, com uma produção sem mácula, a cargo de uma banda que pretende evoluir sem receio de fugir a certos clichés, bastando atentar em temas como "Posture", "Meet Where We Are", "Negative", So Much You" para descortinar várias partes numa mesma canção, e que canções!

sexta-feira, março 04, 2016

Kal Marks - "Life Is Alright, Everybody Dies"


Uma das bandas mais entusiasmantes do fértil cenário indie de Boston, os Kal Marks acabam de editar o seu terceiro álbum "Life Is Alright, Everybody Dies" após o poderoso "Life is Murder" que figurou na minha lista dos melhores de 2013 e do ep com o curioso titulo "Just A Lonely Fart".

Se no anterior registo o pessimismo perante a espécie humana imperava, desta feita uma certa resignação e até alguma esperança é refletida, bastando para tal atentar no titulo do novo álbum em contraponto com o seu antecessor. Segundo o mentor da banda Carl Shane, aquando da gravação de "Life Is Murder" terá atravessado uma depressão que a pouco e pouco foi aliviando sendo este novo disco o espelho de uma nova mentalidade em tentar viver melhor a sua existência.

Musicalmente falando, o trio mantêm uma química estupenda, sacando "coelhos da cartola" com uma facilidade absurda dada a dinâmica deveras inventiva com que impregnam as dez faixas que compõem este "Life is Alright...".  Provavelmente não serão a banda mais fácil de assimilar, uma vez que o registo vocal de Shane está a milhas do pretendido por um qualquer júri de um programa de treta de novos talentos vocais, (e ainda bem que assim é!), além do mais a sua sonoridade é densa, brutal, com a emoção à flor da pele exposta em sucessivas erupções sonoras e com uma produção "seca" que lhes assenta como uma luva, contudo a sua combinação melódica de um legado indie-rock dos 90 alimentada pela garra do post-hardcore resulta em faixas soberbas como a extensa "Coffee" com uma estrutura digna de uns Karate,  o relembrar dos subvalorizados Rodan em "Loneliness Only Lasts Forever", dos Polvo e Unwound em "Everybody Dies" sem olvidar a marca dos Fugazi, Shellac e Jesus Lizard ao longo de todo o disco.

Por mais adjectivos que encontre para descrever "Life is Alright, Everybody Dies", creio que simplifico a questão afirmando de uma forma bem direta que este disco é do caralho e chega!



quinta-feira, fevereiro 25, 2016

Ulrika Spacek - "The Album Paranoia"



"The Album Paranoia" é o registo debutante dos Ulrika Spacek, um projeto idealizado por dois Rhys (Edwards e Williams) após uma temporada em Berlim. Regressados a Londres decidiram gravar na sua casa conjunta, uma antiga galeria de arte de seu nome KEN. O resultado dessa união revela uma banda (entretanto adicionaram mais três elementos) com uma sonoridade que vagueia entre o krautrock, o psicadélico, e o indie-rock.

A faixa de abertura "I Don't Know" ostenta desde logo a cadência motorik dos NEU! para mais à frente transformar-se num tema dos Deerhunter cruzado com os Moon Duo. "Porcelain" assina pelo mesmo diapasão com uma piscadela de olho aos Radiohead e aos TOY. O curto instrumental "Circa 1954" no qual o teclado fornece um colorido mais cinematográfico, abre caminho para "Strawberry Glue" uma tema com uma evidente costela shoegaze. A empolgante "Beta Male" explora os ritmos circulares dos Loop mas com mais melodia à mistura.

A iniciar a segunda metade deste disco temos os 7 minutos dopantes de "Nk" com uma cadência stoner a ajudar à missa com as guitarras em constante remoinho. Por sua vez "Ultra Vivid" é um belo exercício pop e uma vertente pela qual a banda poderá enveredar com sucesso. "She's a Cult" tem carimbo Sonic Youth e My Bloody Valentine, tal como "There's a Little Passing Cloud In You" revela um empolgante jogo de guitarras digno de um Television ou da juventude sónica entre as descargas mais ruidosas e a parte final mais melodiosa. "Airportism" é um mero remate num disco que exala uma banda com evidente bom gosto, cuja elaboração de canções assentes em ritmos repetitivos aos quais vão acrescentando camadas resulta bem mas tende a revelar-se um pouco óbvia e até preguiçosa. Diria que para disco de estreia não está nada mal, contudo acredito que poderão vir a fazer melhor num futuro próximo.

quarta-feira, fevereiro 10, 2016

Pop. 1280 - "Paradise"



Eu reconheço que enumerar influências para descrever uma banda ou um álbum é uma via facilitista e redutora, contudo, após as contínuas audições do terceiro registo dos Pop. 1280 a minha mente é invadida por uma avalanche de referências que o mais complicado é evitar citar todas sob o risco de estar a descrever "Paradise" como um mero exercício revisionista da matéria dada, o que não é o caso mas pouco falta.

 Desta feita a banda de Brooklyn acentua a sua devoção pelo rock industrial através dos sinistros teclados e a incessante percussão ao qual se adicionam vocalizações em tom de discurso inflamado e guitarras a imitar o alvoroço de uma qualquer siderurgia. "Paradise" soa a disco conceptual baseado numa sociedade que no atual panorama politico e económico, perdeu a esperança num mundo melhor e depara-se com um cenário distante do paraíso a que o titulo sarcasticamente alude.

Confesso que nunca fui um grande adepto das sonoridades industriais, regra geral aprecio algumas das suas características aliadas a outras vertentes de que são um bom exemplo os Cop Shoot Cop, banda que saltou logo à memória e que estranhamente não vi referida nas diversas criticas a este disco, mesmo tendo em conta que a produção ficou a cargo do afamado Martin Bisi. A partir daí surge a tal enxurrada de similaridades sonoras com os Suicide, Killing Joke, Birthday Party, Nitzer Ebb, Big Black, Swans, Sisters of Mercy, Front 242, Scrapping Foetus Of The Wheel, Fad Gadget, Nine Inch Nails, Klinik, Virgin Prunes e mais umas quantas através das 9 faixas que regra geral possuem uma carga plena de agressividade: "Phantom Freighter", "In Silico", "USS ISS", alternadas com momentos mais pausados e diria até cinematográficos como a faixa que dá titulo ao álbum, "Rain Song" ou "Pyramids on Mars".

Embora "Paradise" possua argumentos suficientes para entusiasmar, no entanto não são suficientes para ultrapassar a barreira de um disco que forçosamente remete em demasia para um exercício de nostalgia.

quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Fat White Family - "Songs For Our Mothers"


Os Fat White Family são uma banda de drogados (eles próprios admitem!) com uma sonoridade difícil de catalogar, um sentido de humor deveras peculiar (basta atentar ao titulo deste disco) e cuja pretensão é agitar consciências ao invés de alcançar uma notoriedade que os posicione num horário nobre de um qualquer mega-festival.

"Songs For Our Mothers" é o aguardado sucessor do indefinível registo de estreia "Champagne Holocaust" (2013) que colocou esta bizarra banda nas bocas do mundo graças às suas canções pouco convencionais, vídeos a tender para o chocante e atuações ao vivo a roçar o caótico. Tudo bons indícios portanto, para que este novo disco criasse algum burburinho quanto ao que esta rapaziada seria capaz de elaborar e verdade seja dita, os Fat Whites não só corresponderam às expetativas como tornaram-se ainda mais inclassificáveis.

Apesar de terem melhores condições de gravação, a banda apostou novamente numa produção a tender para o caseiro, contudo, teve mais tempo para explorar em estúdio algo que é notório através da inclusão de vário instrumentos pouco usuais e em extrair sons atrofiados das suas guitarras (por vezes sou levado a pensar que estão verdadeiramente desafinadas!).

"Whitest Boy On The Beach" tem as honras de abertura e não podiam começar melhor com este cruzamento de Suicide, Silver Apples e Clinic. "Satisfied" avança com caixa de ritmos, toada glam, guitarras dissonantes e por momentos dou por mim a pensar nos Tones On Tail. "Love Is The Crack" soa a Thee Oh Sees quando tiram o pé do acelerador e tentam imitar os Beatles mergulhados em ácido, ao passo que a extensa "Duce" é toda uma missa fúnebre de contornos industriais digna do catálogo dos Swans.

"Lebensraum" assemelha-se a uma recriação do "Lonesome Town" de Ricky Nelson via Tom Waits, e a caixa de ritmos volta à carga em "Hits Hits Hits" para um menear da anca insinuante terminando em algo que os Primal Scream poderiam ser os autores. O ritmo motorik dá um ar da sua graça em "Tinfoil Deathstar", pincelada com teclados retro 60's e no final fica a impressão de ter escutado um cruzamento entre os Apse e os dEUS. Prosseguimos para um suposto clássico da Disney sob efeito de LSD e andamento de valsa em "When Shipman Decides" para de seguida entramos no inferno de "We Must Learn To Rise" e terminarmos em beleza com a acústica "Goodbye Goebbels", mais uma referência ao universo fascista que os mais incautos poderão não entender mas quem estiver ciente do quão subversivos os Fat White Family podem ser, acaba facilmente por esboçar um sorriso.