terça-feira, dezembro 15, 2015

Best Of 2015



Esta necessidade de criar uma lista dos melhores discos de cada ano tem muito que se lhe diga, mas levaria a uma dissertação que no final resume-se a um critério pessoal e a determinados factores que influenciaram as escolhas, e além do mais, ninguém gosta de ler textos extensos na net.
Eleger o melhor do ano é tarefa que tenho vindo a evitar e este ano não é excepção, muito embora o mais forte candidato fosse "Holding Hands With Jamie" dos Girl Band. Prefiro resumir um ano de edições musicais a uma quantidade de discos que ouvi amiúde com satisfação e basicamente é isso que conta. Muitos ficaram de fora desta lista de 40 registos, derivado a vários factores e quem sabe, poderão vir a seduzir os meus ouvidos no futuro.
Apesar das inúmeras horas passadas a ouvir os lançamentos de 2015 (acreditem, foram muitas!) é óbvio que muito ficou por descobrir, mas esse questão é a mesma de todos os anos. Sem mais delongas apresento-vos por ordem alfabética os tais "Melhores de 2015" acrescidos de uma pequena resenha e link para a sua audição na esperança que vos desperte o interesse.
Como espécie de bónus adicionei uma mixtape assente em 20 faixas representativas dos tais 40 registos. Ficam os votos de um bom ano, claro está, repleto de boa música!



01 - Blacklisters - "Adult"
Segundo álbum desta formação de Leeds com uma sonoridade noise-rock ao nível do melhor Jesus Lizard e Pissed Jeans. Produção a cargo de MJ dos Hookworms.



02 - Built To Spill - "Untethered Moon"
Regresso em grande forma da banda liderada por Doug Martsch, Quiçá um pouco mais pop mas sempre com aquela qualidade que lhes é reconhecida.




03 - Christian Fitness – "Love Letters In The Age Of Steam"
Christian Fitness é o alter-ego de Andrew Falkous, mentor de bandas como os Mclusky e Future Of The Left. Quem as conhecer já sabe o que a casa gasta!



04 - Conduct - "Fear and Desire"
Perante um disco que foi gravado por Steve Albini e masterizado por Bob Weston, membros dos Shellac, é óbvia a sua influência neste disco mas "Fear and Desire" é muito mais que simples devoção.




05 - Death And Vanilla - "To Where The Wild Things Are"
Terceiro registo deste duo sueco que combinam de forma exemplar exótica, krautrock, library music, bandas sonoras vintage, dream pop ou se preferirem, a banda perfeita para matar saudades dos Stereolab e Broadcast.



06 - Destruction Unit - "Negative Feedback Resistor"
Se algo ainda ficou de pé após a devastação do anterior "Deep Trip", este novo registo tratou de reduzir tudo a cinzas dada a sua carga demolidora.




07 - Disappears - "Irreal"
Art-rock negro, denso e claustrofóbico com elementos da No Wave, Post-Punk e industrial. Não é de fácil assimilação mas ainda bem que assim é.




08 - Enablers - "The Rightful Pivot"
Descrever o som dos Enablers não é uma tarefa que se toma de ânimo leve dada a sua complexidade sonora. Carreguem no link abaixo para confirmar como eu tenho razão. 



09 - Föllakzoid - "III"
Os psicadélicos chilenos voltam à carga com mais uma valente dose de música tripante. Estão prontos para entrar noutra dimensão?
'Bora lá ouvir!





10 - Girl Band – "Holding Hands With Jamie"
As expectativas eram elevadas mas banda irlandesa confirmou em pleno, tanto em disco como ao vivo, que possuem talento, criatividade e energia mais do que suficientes para os seguirmos atentamente num futuro que aparenta ser bastante promissor. Brutal!
'Bora lá ouvir!




11 - Jacco Gardner - "Hypnophobia"
O holandês investe numa pop psicadélica barroca com uma dose experimental q.b. em canções que ficam facilmente na memória.
'Bora lá ouvir!



12 - Krill - "A Distant Fist Unclenching"
Terceiro e infelizmente o derradeiro registo desta formação de Boston. Não tarda surgirão bandas a revelar a sua influência.




13 - La Luz - "Weirdo Shrine"
Surf-pop, harmonias sacadas às girls groups de 60 e uma costela garage são os condimentos necessários para criar um disco estimulante.



14 - Lair – "Test"
Segundo álbum deste desconhecido duo que funde diversas vertentes de uma forma experimental, mas cujo resultado final surge como um todo homogéneo. Confusos?



15 - Leon Bridges - "Coming Home"
Basicamente basta descrever este disco debutante como o melhor registo soul deste ano. 




16 - Lonelady - "Hinterland"
Espécie de tributo à sua Manchester, Julie Campbell elabora um disco cimentado no catálogo da Factory e nos movimentos pós-punk e mutant disco de finais de 70 mas com um toque de modernidade.




17 - Mbongwana Star – "Mbongwana Star"
Combinação dos ritmos congoleses com eletrónica poderá soar algo estranho mas graças à produção de Doctor L., este disco com membros dos Staff Benda Bilili resulta em pleno.



18 - Metz - "II"
Porventura não tão impactante quanto o registo debutante, mas igualmente devastador.




19 - Mikal Cronin - "MCIII"
Desta feita Cronin coloca tudo no assador, seja em termos de diversidade sonora, em arranjos e produção e o resultado é deveras satisfatório.


20 - Minami Deutsch – "Minami Deutsch"
Banda japonesa cria um disco puramente kraut  e soa uma maravilha. Daqueles que apetece colocar em modo repeat. Moca!


21 - Modest Mouse – "Strangers To Ourselves"
Oito anos volvidos os Modest Mouse regressam em forma embora com um disco algo desigual mas ainda assim com um número suficiente de boas canções para figurar nesta lista. Além disso já tinha saudades de Brock e companhia!
'Bora lá ouvir!




22 - OST – "The Man From U.N.C.L.E."
Quiçá fruto da minha recente devoção a bandas sonoras de culto,  não resisti em colocar este disco composto por Daniel Pemberton que honra os grandes nomes do género como Morricone, Schifrin, John Barry e até David Holmes.




23 - PINS – "Wild Nights"
O segundo registo das PINS revela uma maior maturidade sonora vagueando por terrenos comuns às Vivian Girls e aos Duke Spirit.
'Bora lá ouvir!




24 - Pope - "Fiction"
Recuperadores de uma certa estética lo-fi dos anos 90, o disco de estreia dos Pope não é um poço de originalidade mas possuí temas que, para quem cresceu com este som, ainda seduzem e convencem estes ouvidos.
'Bora lá ouvir!




25 - Protomartyr – "The Agent Intellect"
Ao terceiro registo esta banda de Detroit eleva a fasquia e cria o seu melhor registo até à data, revelando um aprimorar na sua construção musical e letras existencialistas.
'Bora lá ouvir!




26 - Salad Boys – "Metalmania"
Herdeiros da sonoridade da Flying Nun e do indie rock americano dos 80, estes neozelandeses foram uma das melhores surpresas deste ano.
'Bora lá ouvir!




27 - Shopping – "Why Choose"
Segundo álbum deste trio londrino repleto de ritmos punk-funk com uma atitude politizada. A revolução também pode ser uma festa!



28 - Sleaford Mods - "Key Markets"
Não existem grandes mudanças em relação ao anterior "Divide & Exit", uma produção mais aprimorada, batidas mais refinadas mas não é preciso mexer muito numa fórmula vencedora.


29 - Someone Still Loves You Boris Yeltsin - "The High Country"
Mais rock do que é usual nesta banda mas sempre com a pop a pontuar as suas canções, numa carreira que conta já com cinco discos merecedores de atenção.
'Bora lá ouvir!




30 - Songhoy Blues – "Music In Exile"
O desert blues do Mali numa luta acesa com a tradição blues/rock americana, pincelada com ritmos funky. Quem ganha é o ouvinte!
'Bora lá ouvir!




31 - Spray Paint - "Punters On A Barge"
Os texanos Spray Paint são dignos herdeiros de uma geração de bandas underground americanas dos 80 cujo legado pode ser apreciado neste disco.




32 - The Lucid Dream - "The Lucid Dream"
Por entre tanto revivalismo psicadélico, os The Lucid Dream revelam-se como uma banda que não pretende meramente imitar, mas acima de tudo, evoluir, algo que se faz notar neste segundo álbum.
'Bora lá ouvir!





33 - The TeleVibes – "High Or Die"
Banda que aos poucos tem vindo a conquistar alguma notoriedade no povoado cenário indie americano, editam o primeiro disco que espremido resulta num ep do caraças!
'Bora lá ouvir!




34 - Thee Oh Sees - "Mutilator Defeated At Last"
Disco mais musculado que o anterior "Drop" e digno sucessor do poderoso "The Putrifiers II". Como diria o homem da Regisconta a banda de John Dwyer é "aquela máquina!"
'Bora lá ouvir!




35 - Tijuana Panthers - "Poster"
Limparam alguma da sujidade habitual no seu som e criaram um conjunto de canções que saltita entre o garage, o surf, o punk e a pop.
'Bora lá ouvir!




36 - TRAAMS – "Modern Dancing"
Mais um disco produzido por MJ dos Hookworms (não foi propositado!) desta feita o segundo álbum deste trio inglês cujas coordenadas sonoras apontam para várias direcções dentro do espectro indie-rock.
'Bora lá ouvir!



37 - Twerps - "Range Anxiety"
Este é daqueles que cola logo à primeira e felizmente não acaba por enjoar. Um belo disco pop desta formação australiana.
'Bora lá ouvir!




38 - Ultimate Painting - "Green Lanes"
Nem um ano volvido, Jack Cooper (Mazes) e James Hoare (Veronica Falls) voltam ao ataque com as suas melodias simples mas devera eficazes.
'Bora lá ouvir!




39 - White Reaper - "White Reaper Does It Again"
Outro registo que aguardava com ansiedade, a estreia dos White Reaper é uma fusão de garage-punk-rock com refrões orelhudos e teclados New Wave.
'Bora lá ouvir!



40 - Yo La Tengo - "Stuff Like That There"
Espécie de continuação daquele irresistível "Fakebook" (1990) no qual a banda desliga-se um pouco da eletricidade para recriar alguns dos seus temas, apresentar novas canções, e claro está, desbundar umas quantas versões como só eles sabem fazer.
'Bora lá ouvir!

Bónus Mixtape


segunda-feira, novembro 30, 2015

The TeleVibes - "High or Die"



Outrora destacados neste espaço, desta feita volto a redigir umas linhas sobre os The TeleVibes em virtude da edição do seu primeiro longa duração "High or Die" editado no passado mês de Maio e passível de ser descarregado gratuitamente aqui.

Se os registos anteriores indiciavam uma banda cujas coordenadas sonoras apontavam para o rock psicadélico, o garage rock e o surf-pop, neste disco reforçam o ênfase no psicadelismo, desde logo através da sua capa e diversos piscar de olho ao Pink Floyd em faixas como "The Piper At The Gates of Bong" e "Pete ColdPack". No entanto o trio não se deixa levar completamente pela corrente psicadélica, continuando a compor faixas que não destoariam num disco dos Thee Oh Sees com guitarras repletas de fuzz e vocalizações reverberadas de que são exemplo "DMT", "Asyd" e "Ex To See".

Se retirarmos os interlúdios experimentais algo inconsequentes, acabamos com um ep de elevada categoria e o reforço de que os The TeleVibes são uma banda a ter em conta no futuro.


quarta-feira, novembro 18, 2015

Shopping - "Why Choose"



Segundo registo do trio londrino composto por Rachel Haggs, Billy Easter e Andrew Milk que aos poucos tem vindo a conquistar o seu espaço graças a uma sonoridade tipicamente devedora da vaga pós-punk, mas que apesar de facilmente detetarem-se as influências (ESG, Delta 5, Au Pairs, Slits, Talking Heads, Kleenex, Bush Tetras, The B-52's) soam a algo que não inovador mas bem elaborado e de fácil assimilação.

Se o registo de estreia "Consumer Complaints" revelava uma banda promissora, este "Why Choose" confirma as expetativas criadas pelo seu antecessor, denunciando uma banda consciente da sua mensagem politica, embora sem radicalismos, e com uma percepção musical assente nas premissas do género mas demonstrando que dentro de um estilo tão batido ainda existe espaço de manobra para criar algo minimamente interessante.

Para além das referências musicais citadas, sempre com o ritmo como foco primordial, ou se preferirem, em colocar o ouvinte ou espetador a mover o corpo,os Shopping tentam acima de tudo, conjugar a crítica politica e social inerente a esta vertente sem entrar num registo sonoro repleto de agressividade mas sim de ondas sonoras dançáveis, porque a mensagem não tem de ser cuspida para ser compreendida.

Em apenas meia-hora os Shopping despacham 12 temas nos quais gostaria de ouvir mais o diálogo da voz feminina/masculina como em "Straight Lines", contudo o jogo de vozes é um dos trunfos da sua sonoridade, sempre alicerçado em guitarras devedoras dos Wire ou Gang of 4, baixos repletos de groove e batidas ritmadas. Por vezes remetem para exemplos mais recentes como o caso das Electrelane ou dos Gossip mas as suas raízes estão bem vincadas na viragem da década de 70.


quarta-feira, outubro 28, 2015

Christian Fitness - "Love Letters In The Age Of Steam"



Christian Fitness é o alter-ego de Andrew Falkous (Falco para os amigos) mentor de bandas tão relevantes quanto os Mclusky e Future of The Left, que nesta sua "one man band" decide dar vazão à sua criatividade tocando todos os instrumentos à excepção da bateria.

Após ter editado "I Am Scared Of Everything That Isn't Me" no passado ano, Falco volta à carga com "Love Letters In The Age Of Steam" de momento apenas disponível para download através da sua página no Bandcamp. Como apreciador do seu trajecto musical assente num rock bastante abrasivo e letras corrosivas, confesso que tive algum receio em ouvir este registo, uma vez que, regra geral, a tendência dos músicos é suavizar e revelar outra faceta mais intimista e menos usual nas bandas que os impulsionaram para um certo reconhecimento. Felizmente não é esse o caso, e diria até que este "Love Letters" poderia fazer parte da discografia dos Future Of The Left.

A rondar os 30 minutos de duração, Falco despacha 10 faixas maioritariamente curtas mas plenas de consistência numa fusão de punk, noisy-indie-rock mas sempre com um sentido melódico e refrões que noutra dimensão seriam cantaroláveis por muitos. Destaque para o registo vocal empregue que tanto balança em narrador de histórias de suspense, oscila num falsete esquizofrénico e termina num berreiro já marca registada, muito embora perca alguma intensidade quando entra numa faceta de "cantor pop".

Pleno de temas demolidores como "Upset Army", "Middleyurt" e a faixa que dá titulo a este disco, no entanto existe espaço para temas mais pop "Standard Issue Grief", experiências a roçar o Prince cruzado com Pixies em "The Harder It Hits"ou o abalo sónico de "3 Speed Limiters". Peca na parte final com um "Who Is Iron God?" algo irritante e "Psychic Reader" numa espécie de synth-pop com demasiado teclado para o meu gosto.

Christian Fitness pode ir editando discos que desta forma não sinto a falta dos Future Of The Left!


quarta-feira, outubro 21, 2015

Lair - "Test"




Os Lair são um duo oriundo de Boston composto pelos multi-instrumentalistas John Moxley e Alek Glasrud e "Test" é o seu segundo registo sucedendo ao recomendável homónimo disco editado em 2014. Com uma sonoridade algo complexa de descrever, onde se vislumbram elementos típicos do krautrock, valentes doses de noise-rock, eletrónica marada, e um manto experimentalista a cobrir todo o disco, os Lair revelam-se uma banda deveras excitante graças a toda esta fusão que resulta num disco que peca por curto e leva o ouvinte a salivar por mais.

Embora as influências não sejam fáceis de detetar, acredito que a banda seja apreciadora de Boredoms, Deerhoof, Devo, Suicide ou de exemplos mais recentes como os Liars, DFA 1979 e bandas mais obscuras como os Whirlwind Heat, Ex Models, Dmonstrations ou Black Eyes, no entanto o duo consegue dar um cunho bastante pessoal aos sete temas que preenchem este "test" que na gíria escolar teria uma nota bem elevada, ainda para mais porque disponibilizam gratuitamente a sua descarga.

sexta-feira, outubro 16, 2015

Protomartyr - "The Agent Intellect"



Quarteto oriundo de Detroit, os Protomartyr acabam de editar "The Agent Intellect" o seu terceiro longa-duração que decerto elevará a banda a outros patamares em termos de público e reconhecimento, graças a um refinamento da sua sonoridade outrora assente num garage rock apunkalhado com laivos de post-punk.

Um dos trunfos dos Protomartyr assenta obviamente em Joey Casey, tanto pela sua escrita como pela forma de cantar cada vez mais apurada, sem contudo olvidar uma banda que a cada registo revela uma maior coesão e inventividade. Com um titulo retirado a uma teoria filosófica, "The Agent Intellect" espelha um certo negrume derivado ao falecimento dos pais de Joey aquando da elaboração deste disco, fator preponderante para uma escrita mais focada em tópicos como a mortalidade, o bem e o mal, religião e demónios.

Com um maior pendor para a vertente post-punk cruzada com um familiar indie-rock, que tanto parte dos Joy Division, The Fall e Pere Ubu, trilha terreno desbravado por Nick Cave, diverge por caminhos mais punk-rock dos Parquet Courts e deságua no pantanoso território habitado pelos The National, "The Agent Intellect" reflete uma maior paleta sonora que os seus antecessores assim como uma vertente melódica omissa nos anteriores registos, no entanto convêm ter atenção no futuro para não cair no tal terreno "pantanoso".


quarta-feira, outubro 07, 2015

Girl Band - "Holding Hands With Jamie"



Quiçá o disco de estreia mais aguardado deste ano (pelo menos para mim) "Holding Hands With Jamie" surge finalmente após vários ep's e singles que revelam a progressão desta banda irlandesa cujo percurso parte de uma sonoridade devedora dos Nirvana (fase "Bleach") para culminar num pós-punk bastante ruidoso de contornos industriais ao qual não se escusam de adicionar batidas tecno e cacofonia No Wave.

Diria que o maior trunfo dos Girl Band alicerça-se em criar dinâmicas que surpreendam o ouvinte, e numa altura em que parece que nada mais há a inventar em termos musicais, é com imenso agrado que ao ouvir vários temas neste disco fico espantado perante certas derivações e detalhes dos quais não estava à espera, seja através da bateria que amiúde escapa do seu conceito habitual, da guitarra a soar a um berbequim ou da forma de cantar de Dara Kiely que varia entre um tipo a tender para o ébrio a fazer um frete e a balbuciar palavreado inconsequente para num ápice desatar num berreiro desenfreado e descontrolado, como que irritado com o mundo por simplesmente a manteiga não ser de boa qualidade!

Detalhe deveras importante neste disco assenta igualmente na produção levada a cabo pela banda, aumentando e diminuindo determinadas pistas na mistura criando uma atmosfera sonora que assemelha-se a uma captação perdida num qualquer armazém abandonado com o espirito dos Einsturzende Neubauten a assombrar a gravação.

De exemplos estrepitosos mais recentes como os Yvette, Metz e Blacklisters, passando pelo experimentalismo dos Liars e Battles, até ao rock semi-industrial dos Big Black, Swans e Cop Shoot Cop, sem olvidar o registo vocal de Mark E. Smith e David Yow, tudo isto é detetável neste registo mas conjugado de uma forma criativa cuja audição requer alguma insistência (para os ouvidos mais sensíveis) revelando-se verdadeiramente compensadora no final.


quinta-feira, outubro 01, 2015

Salad Boys - "Metalmania"


Apoiados no legado da Flying Nun, editora neozelandesa que marcou o panorama indie na década de 80 com bandas como os The Chills, The Bats, The Clean e Verlaines, os Salad Boys estreiam-se com o longa duração "Metalmania" na cada vez mais influente Trouble In Mind Records.

Após um mini-lp editado em 2013 que lhes assegurou alguma notoriedade fora de portas, o trio composto por Joe Sampson, Ben Odering e Jim Nothing que curiosamente foi recrutado por David Kilgour dos The Clean como banda de apoio, surge com um admirável disco no qual é inequívoca a marca da Flying Nun mas que felizmente não se fica pela prata da casa e estende o seu rol de influências em particular ao rock alternativo americano dos anos 80, mais concretamente aos Feelies onde se inspiraram para batizar a banda, aos Television, R.E.M., Replacements, e igualmente dos 90 com piscadelas sonoras aos Lemonheads, Yo La Tengo, Pavement e Sebadoh.

Alternando temas mais jangle pop com a guitarra acústica a marcar a cadência ("Here's No Use", "Better Pickups", "Bow To Your New Sensation", "First Eight") e mais elétricos ("Dream Date", "No Taste Bomber, "I'm A Mountain", "Hit Her And Run"), o resultado final é um disco bem conseguido, roçando a excelência em vários momentos e que augura aos Salad Boys um futuro deveras promissor. Para tirar as dúvidas basta clicar aqui e desfrutar um dos melhores discos editados este ano.

quarta-feira, setembro 23, 2015

Blacklisters - "Adult"



Num recente artigo publicado na Louder Than War, os Blacklisters foram convidados a enumerar 10 bandas que influenciaram o seu som. Muito embora todos os elementos tenham um gosto eclético, a lista assenta em bandas ora de nomeada (Shellac, Jesus Lizard, Melvins, Gang of 4, Devo, Big Black, Pissed Jeans) ou mais obscuras (Kong, Hawk Eyes, Daughters) revelando desde logo, uma base sonora que assenta num universo mais noisy, pesado e matemático ao qual poderíamos acrescentar os Unsane, Helmet ou os mais recentes Mclusky, Pulled Apart By Horses, Young Widows e Dope Body.

"Adult" é o segundo registo de originais deste quarteto de Leeds, após a estreia em 2012 com o fulgurante "Blklstrs", e perante o parágrafo anterior está bom de ver que não estamos a falar de música pop mas sim de um rock ruidoso, desconfortável, massacrante, agitador, "in-your-face", que pega no ouvinte pelos colarinhos e cospe-lhe na cara enquanto os seus tímpanos explodem dada a agressividade decibélica emitida ao longo das 10 faixas que compõem este disco, ao qual não falta um toque de humor e sarcasmo patente em títulos como "The Sadness of Axl Rose", "I Knock Myself Out" ou "Power Ballad", sem esquecer o grafismo que ilustra a sua capa.

Perante tal cenário, estão mais do que informados sobre o que vão encontrar neste disco, e se os vossos estimados ouvidos ainda clamam por uma boa dose de noise-rock, então "Adult"  tratará de os saciar devidamente!

quarta-feira, setembro 16, 2015

Destruction Unit - "Negative Feedback Resistor"



Formados em inicio deste século, os Destruction Unit contam já com uma apreciável discografia e uma carreira com diversas mudanças na composição da banda da qual fez parte o malogrado Jay Reatard. "Negative Feedback Resistor" é o oitavo disco de originais e sucede ao estonteante "Deep Trip" igualmente na influente editora Sacred Bones.

Apostados em massacrar o ouvinte (no bom sentido), os Destruction Unit prosseguem com este novo registo num abalo auditivo assente na velocidade punk/hardcore, no niilismo dos Pussy Galore, no rock cavernoso dos Birthday Party, na agressividade dos Scratch Acid à qual podemos acrescentar a nova geração ruidosa dos Metz, Pissed Jeans, The Men (primeira fase) e o uso e abuso de pedais de efeitos ao estilo de uns A Place To Bury Strangers e White Hills.

"Disinfect" abre as hostilidades em crescendo para não mais dar tréguas até ao final, num turbilhão sonoro com uma bateria em espancamento contínuo, guitarras distorcidas e mergulhadas em diversos efeitos com uma ligeira inclinação para o psicadélico e vocalizações possessas entre um Nick Cave, Lux Interior e David Yow, resultando num disco que poderia ser o seguimento natural de "Horse Of The Dog" dos The 80's Matchbox B-Line Disaster.

Se todas estas referências vos seduzem, podem efetuar o download do álbum aqui e comprovar que os Destruction Unit são uma das bandas mais entusiasmantes e barulhentas da atualidade.


quinta-feira, setembro 10, 2015

Tijuana Panthers - "Poster"



Um ano após a edição do mui recomendável "Wayne Interest" que figurou na minha lista de favoritos de 2014, o trio californiano Tijuana Panthers volta à carga com "Poster", um álbum que espelha uma melhoria ao nível da composição, assim como uma maior clareza no seu som outrora mais lo-fi e mergulhado em "reverb", algo que não abandonaram de todo mas ao qual limparam alguma "sujidade".

A sua combinação de surf, garage, punk e pop resulta numa receita com bons resultados que puderam ser comprovados ao vivo na mais recente edição do Milhões de Festa a que infelizmente não pude aceder, mas estou certo que quem presenciou terá abanado a anca mercê da energia que transborda dos seus temas.

Destacar faixas de "Poster" não é tarefa fácil mas ainda assim pressente-se o espirito C-86 em "Send Down The Bombs", os The Drums de boa memória em "Front Widow Down", uma certa semelhança entre "Right And Wrong" e "Vicar In A Tutu" dos The Smiths, o aproximar aos colegas de editora Allah-Las em "Trujillo" ou o legado de Jay Reatard em "Seth Forth". Sempre que a saudade apertar por dias de Verão, basta colocar este disco e seguramente serão transportados para uma praia perto de si.


quarta-feira, setembro 02, 2015

Yo La Tengo - "Stuff Like That There"


Banda que já se tornou uma instituição, os Yo La Tengo apresentam desta feita "Stuff Like That There, um conjunto de versões e reinterpretações às quais adicionaram duas novas canções, em jeito de celebração do 25º aniversário do fascinante "Fakebook" (1990), um álbum que revelou desde então a sua mestria em transformar qualquer versão, seja popular ou obscura, numa canção com o carimbo Yo La Tengo.

Evitando a todo o custo a distorção, este disco assenta em guitarras acústicas, ocasionais twangs (por vezes a lembrar o Ry Cooder de "Paris, Texas"), baterias escovadas e vozes frágeis, contando ainda com o precioso auxilio do guitarrista Dave Schramm outrora elemento da banda na sua fase inicial.
As versões oscilam entre bandas e artistas de renome (Hank Williams, The Cure, The Lovin' Spoonful) e mais obscuros (Special Pillow, Great Plains Antietam) sempre com o cunho caraterístico do trio, com destaque para o desempenho vocal de Georgia Hubley no tema de abertura "My Heart's Not In It" (Darlene McRea) e o famoso "I'm So Lonesome I Could Cry".

No que toca a recriações, "The Ballad Of Red Buckets"do meu preferido "Electr-o-pura", "Deeper Into Movies" do igualmente sedutor "I Can Hear The Heart Beating As One" e "All Your Secrets" do mais recente "Popular Songs", são passadas pelo crivo acústico, não perdendo contudo a sua magia. No que diz respeito aos novos temas, (ambos interpretados por Ira Kaplan) oscilam entre a balada country em "Awhileaway" e "Rickety" mais aproximada da "canção-tipo YLT" que me levou a desejar por uma versão mais eletrificada da mesma.

Se dúvidas subsistiam no que diz respeito à sua diversidade estilística, critério de escolha de versões e fundamento nas edições discográficas (quiçá nos apreciadores mais recentes), este disco dissipa-as completamente, pois sempre foi assim que os Yo La Tengo regiram a sua carreira e sempre se deram bem.

quinta-feira, agosto 27, 2015

Ultimate Painting - "Green Lanes"



Nem um ano volvido após a edição do homónimo registo debutante que lhes assegurou um lugar na minha lista dos melhores de 2014, Jack Cooper (Mazes) e James Hoare (Veronica Falls) voltam a unir esforços e editam "Green Lanes", um disco que segue a linha do anterior, assente numa pop relaxada, lânguida, simplista (no bom sentido) e até um pouco soalheira.

A marca do terceiro álbum dos Velvet Underground é por demais visível, à qual se adiciona a pop dos Kinks, os Teenage Fanclub sem distorção ou o jangle-pop dos Real Estate, resultando num disco descontraído,  melódico, que não se esforça em ser algo mais que um bom conjunto de canções nas quais os protagonistas vão revezando nas vozes ao bom estilo dos The Go-Betweens, assente numa produção básica o quanto baste. Por vezes as coisas mais simples são as mais eficazes.






quinta-feira, agosto 20, 2015

La Luz - "Weirdo Shrine"



Após o cativante cartão de visita "It's Alive" na cada vez mais influente Hardly Art, as La Luz retornam com "Weirdo Shrine", um disco que reafirma a paixão que a banda nutre pelo surf-rock, sem esquecer as harmonias das girls groups da década de 60 e um aproximar ao universo de bandas como as Vivian Girls, La Sera, Frankie Rose & The Outs e Chastity Belt.

Produzido por Ty Segall que assegura uma sonoridade retro que aposto deve soar uma maravilha em vinil, "Weirdo Shrine" é um disco marcadamente surf (Dick Dale, Link Wray, The Ventures) e sendo eu um admirador deste género, é com imenso prazer que escuto a reverberação e o seu dedilhar tipico conjugado com melodias adocicadas onde não faltam coros de "ooohhs" e "aaaaahhhs" e vários jogos vocais bem engendrados, por entre letras que refletem um estado de espirito por vezes mais amargo.

Entre temas mais languidos e outro mais acelerados, as La Luz construíram um disco coeso que resulta em pleno neste Verão que atravessamos através de uma sonoridade que remete de imediato para sol, praia, festa, bebidas tropicais e a ocasional paixoneta da época.


quarta-feira, agosto 12, 2015

Sleaford Mods - "Key Markets"



Após vários anos a tentar alcançar um lugar ao sol no panorama musical britânico, a dupla Sleaford Mods finalmente atinge com este "Key Markets" o reconhecimento devido com a sua simples fórmula de baixo, bateria e vocalizações sempre a colocar o dedo na ferida em terras de Sua Majestade.

Se o anterior "Divide And Exit" conseguiu catapultar a banda para outros patamares graças a temas tão contagiantes quanto "Tied Up In Nottz" ou "Tweet Tweet Tweet", este novo registo surge como um aprimorar da sua conjugação de batidas ritmadas e baixos gordos na senda de bandas punk-funk como as E.S.G. ou Delta 5, e o discurso sempre inflamado de Jason Williamson algures entre a poesia non-stop de John Cooper Clarke e a critica mordaz de Mark E. Smith dos The Fall.

Sempre corrosivo, Williamson vai dissertando sobre várias vertentes da realidade britânica, seja a nível politico, económico mas acima de tudo social, sempre com imensos palavrões à mistura e um humor que muitos não entenderão. "Key Markets" revela-se um disco com poucas diferenças em relação aos seus antecessores, contudo podemos descortinar um maior cuidado com a produção, na elaboração das batidas e até um esforço por parte de Williamson em cantar!

As referências a várias bandas e músicos, na maioria negativas, continuam a povoar as suas letras, desta feita os visados passam por Shakin' Stevens, Von Bondies, Jack White, Rocket From The Crypt, Puff Daddy, Two Door Cinema Club, Blur e Kate Bush, mas se alguém levar a mal, decerto sai mais um "fuck off".

Sintoma de que os Sleaford Mods alcançaram a primeira divisão musical são as recentes colaborações em discos dos Prodigy e Leftfield e atuações em horário nobre em vários festivais. Fica a questão de até quando a sua sonoridade irá prevalecer de forma tão minimal e sedutora. Até lá é desfrutar temas como o cáustico"Live Tonight", o panfletário "No One's Bothered" ou o contundente "In Quiet Streets".

quinta-feira, julho 30, 2015

What Moon Things



Por sugestão de um amigo decidi investigar os What Moon Things e à primeira impressão calculei que teria escrito mal o seu nome pois tanto a capa como os títulos das faixas remetiam para paragens que não me seduzem por aí além. No entanto decidi ouvir e aos poucos fui percebendo o entusiamo que a banda tem criado à sua volta.

Oriundos de Nova Iorque, o trio composto por Jake Harms, John Morisi e Eric Sowalskie inciaram a sua atividade em 2012 tendo editado em Junho de 2014 o homónimo registo debutante que deambula por terrenos outrora calcorreados pelos The Cure, Walkmen, Slint, Codeine, Pinback ou Modest Mouse.

Nesta diversidade de boas influências assenta a mais valia desta banda que em temas como "Vampire", "The Astronaut" ou "Staring At The Radio" tanto remetem para uma face mais sombria do pós-punk, um indie rock mais esquizofrênico graças à vocalização de Harms, guitarras ora intimistas ora abrasivas e uma cadência slowcore em vários momentos que julgava ter desaparecido.
Enquanto não surgem mais novidades dos WMT aproveitem para ouvir um disco de uma banda que acredito terá muito mais reconhecimento num futuro próximo.


segunda-feira, julho 20, 2015

White Reaper - "White Reaper Does It Again"


Após o excelente cartão de visita com o "White Reaper Ep" publicado o ano passado, fiquei a salivar pelo álbum de estreia desta formação oriunda de Louisville no Kentucky, que entretanto adicionou o teclista Ryan Hater ao trio original composto por Tony Esposito (voz, guitarra) e os gémeos Sam e Nick Wilkerson (baixo e bateria respetivamente). "White Reaper Does It Again" confirma em pleno as expetativas que tinha em relação a esta banda como uma pandilha que apenas quer "rockar" e o resto é conversa.

Com uma sonoridade que pisa os terrenos garage-punk de Jay Reatard, Ty Segall, Bass Drum of Death ou Fidlar, sem esquecer a cartilha dos Ramones e a power-pop dos The Cars, este é daqueles discos para ouvir em alto volume, de preferência numa viagem de carro com amigos de longa data a caminho de um destino qualquer longe da realidade cotidiana.

Assente numa produção a puxar tudo para o 11, "White Reaper Does It Again" não é um disco original (nem o pretende ser), mas assegura ao ouvinte, em particular os que já passaram a adolescência e cujos ouvidos já estão calejados, um regresso ao passado quando as guitarradas eram assimiladas como forma de mandar tudo às urtigas. Temas como a abertura explosiva de "Make Me Wanna Die", o "Just What I Needed" dos Cars revisitado em "Pills", os Weezer de boa memória em "Sheila" ou o ramoniano "Wolf Trap Hotel" são alguns exemplos da construção musical dos White Reaper que conjugando velocidade punk, sujidade garage-rock e refrões punk-pop criaram até ver o melhor "fuck-off" álbum deste ano.


quarta-feira, julho 08, 2015

Jacco Gardner - "Hypnophobia"



"Hypnophobia" é o segundo álbum do multi-instrumentalista holandês Jacco Gardner que recentemente esteve em Portugal a promove-lo, tendo previamente passado pela edição de 2013 do Milhões de Festa.

Com uma sonoridade bem assente numa pop psicadélica a roçar o barroco na qual os teclados predominam, este novo disco abre com "Another You" a recordar os saudosos The Bees, prossegue com "Grey Lanes" um instrumental ideal para filmes de culto da década de 60, pisca o olho à folk-pop em "Brightly" e desliza para "Find Yourself" que poderia ter a assinatura dos Temples, The Coral ou Super Furry Animals, resultando perfeita numa qualquer mixtape de Verão.

"Face To Face" revela a devoção a Syd Barrett, enquanto "Outside Forever" soa a cruzamento entre os The Zombies e os Air. Os contagiantes oito minutos de "Before The Dawn" inspiram-se no legado de bandas como os Stereolab e Broadcast, ao passo que o tema-titulo estica-se para lá da convencional duração pop num remoinho psicadélico espacial, encerrando em beleza com "All Over", novamente um instrumental no qual Gardner explora várias tonalidades dos seus teclados vintage, num disco que apesar de soar a pérola perdida da época áurea do psicadelismo dos 60, possui argumentos mais do que suficientes para obter a devida atenção e devoção.


quinta-feira, junho 25, 2015

Leon Bridges - "Coming Home"


"Coming Home" é o registo de estreia na Columbia Records do jovem texano Leon Bridges, um apaixonado pela soul e R&B de meados da década de 60 que já lhe valeu comparações a Otis Redding, Sam Cooke, Marvin Gaye ou ao colega de editora Raphael Saadiq.
Com uma voz aveludada e melodias de fácil audição, Bridges contou com o precioso auxilio de Josh Block e Austin Jenkins dos White Denim como banda de apoio e produção, resultando num disco com um forte travo à época dourada da soul onde não faltam os teclados à Booker T., coros femininos e uma eficiente seção de metais. Vagueando entre baladas que em nada destoariam no cancioneiro da falecida Amy Winehouse, R&B para bater o pezinho que o Nick Waterhouse tão bem explora, aproximação aos Black Keys do galardoado "Brothers" e gospel no arrepiante "River" que encerra este disco, tudo foi pensado ao pormenor e a apontar algum defeito a "Coming Home", será apenas por soar tão deslocado do tempo e por faltar um toque mais pessoal que estou em crer surgirá com o crescimento de Bridges como músico.


sexta-feira, junho 19, 2015

Spray Paint - "Punters On A Barge"


Segundo álbum dos texanos Spray Paint com selo da editora australiana Homeless Records, "Punters On A Barge" revela uma banda imersa nas sonoridades ruidosas da no wave e post-punk com apontamentos de noise-rock e até uma certa aura industrial.

Com uma construção musical assente em ritmos repetitivos, guitarras dissonantes e vocalizações a tender para o agressivo, a referência aos Jesus Lizard é óbvia, no entanto, creio que este disco incide mais nos primórdios dos Sonic Youth (com semelhanças vocais a Lee Ranaldo) e segue um trilho aproximado aos Cold Pumas e Yvette duas das mais estimulantes bandas da atualidade.

Num total de 10 faixas que podem ser escutadas aqui, o trio Spray Paint demonstra  em "Punters On A Barge" criatividade suficiente para cativar os ouvidos mais rotinados a estas andanças mais "noisy"e deixam em aberto um carreira para seguir com atenção.



segunda-feira, junho 08, 2015

Someone Still Loves You Boris Yeltsin - "The High Country"



Formados em meados da década passada em Springfield, Missouri, os Someone Still Loves You Boris Yeltsin surgiram em plena euforia da blogosfera e graças a isso conseguiram algum reconhecimento que levou a um contrato com a sempre recomendável Polyvinyl. "The High Country" é já o seu quinto registo de originais e após dois discos medianos "Let It Sway" (2010) e "Fly By Wire"(2013) retornam com algumas novidades sonoras ao investir mais na vertente rock muito embora a costela pop nunca deixe de estar presente.

"Line On You" abre este disco numa toada grunge-pop na senda dos Weezer e Superchunk, para logo de seguida atacarem com a orelhuda "Step Brother City" algures entre os Strokes e os Beach Boys, onde não faltam os inevitáveis "oooohhs". "Goal Mind", "Full Possession Of Her Powers" e a delicada " "Madeline" são faixas tipicamente indie-jangle-pop, tendência com que a banda foi alicerçando grande parte da sua discografia.

"What I Won" aventura-se em terrenos shoegaze e dream-pop a recordar os seus colegas de editora Headlights. Revelam músculo rockeiro com "Trevor Forever" novamente a inclinar para o território dos Weezer mas também dos Pixies e dos recentes Paws. A finalizar temos a power-pop na linha dos Telekinesis e Nada Surf em "Song Will" e "Total Meltdown", um pouco mais adocicada em "Foreign Future" e um aproximar à escola sónica de "Magnet's New Summer 'Do", concluindo assim um disco que pode resultar em pleno como banda sonora deste Verão.


quarta-feira, maio 27, 2015

Death And Vanilla - "To Where The Wild Things Are"


Banda que me escapou ao radar desde a sua formação em 2010, o duo sueco composto por Marleen Nilsson e Handers Hansson, produzem sob a designação de Death and Vanilla uma sonoridade retro-futurista psicadélica assente nas experiências radiofónicas da BBC na década de 60, em bandas-sonoras vintage, em grupos como os United States of America, Stereolab, Broadcast, no dream-pop dos Mazzy Star, Au Revoir Simone, Beach House e Still Corners, partilhando igualmente um universo similar com os recentes Gulp, Virginia Wing e Soundcarriers.

Apesar do seu som soar deveras familiar, estamos perante um disco que em nada fica a dever às suas influências, embora por vezes estas fazem-se notar em demasia. "To Where The Wild Things Are" foi gravado com parcos meios mas isso não impediu a banda de criar um disco com uma rigorosa produção com a voz de Marleen imersa em reverb, os teclados recheados de pormenores e uma guitarra fuzz a surgir a espaços.

Temas como "Necessary Distortions" (que titulo tão Stereolab!), "California Owls" (olá Beach Boys),  a açucarada "Time Travel" ou "The Hidden Space" (olá Silver Apples) são alguns exemplos de um disco que cria vício e decerto fará parte de várias listas dos melhores deste ano.



quarta-feira, maio 20, 2015

Thee Oh Sees - "Mutilator Defeated At Last"



Após a noticia em finais de 2013 que a banda faria uma merecida pausa em termos de edições discográficas e concertos que acabou por revelar-se infundada, os Thee Oh Sees não dão tréguas e retornam com este monstruoso "Mutilator Defeated At Last", um álbum bem mais musculado que o anterior "Drop" e digno sucessor do poderoso "The Putrifiers II" (2012).

Composto por nove faixas com uma duração total de pouco mais de 30 minutos, "Mutilator..." abre as hostilidades em grande com "Web", um tipico tema do seu cancioneiro no qual psicadelismo, garage rock, batida kraut e os habituais gritos de John Dwyer fazem-se notar. O terramoto sonoro de "Withered Hand" soa a Black Lips a tentar imitar os Blue Cheer ou Black Sabbath e aposto que ao vivo deve criar fendas nas paredes!

O melodioso "Poor Queen" numa vertente aproximada ao garage pop abre caminho para "Turned Out Light" desta feita a piscar o olho ao southern-boogie mas sem descambar. O devaneio sónico de "Lupine Ossuary" pode ser encarado como a continuação de "Lupine Dominus" tema maior de "The Putrifiers II". A roçar os quase 7 minutos de duração "Sticky Hulks" é uma pedrada psicadélica com os teclados a contrabalançar os espasmos guitarrísticos, seguido do instrumental "Holy Smoke", igualmente numa toada psicadélica mas numa abordagem mais folky. Logo de seguida somos abanados pelo garage-punk de "Rogue Planet" e o encerramento em beleza fica a cargo de "Palace Doctor".

Mais uma vez os Thee Oh Sees revelam-se como uma das poucas bandas da atualidade em que podemos apostar que nunca farão um disco mau, e isso nos tempos que correm vale muito!



quarta-feira, maio 06, 2015

Mikal Cronin - "MCIII"



Dois anos volvidos após a edição de "MCII",  o talentoso compositor Mikal Cronin regressa com o seu terceiro registo a solo "MCIII" na histórica editora Merge, tendo desta feita arriscado amplificar ainda mais o seu som com uma produção mais elaborada e maior atenção aos arranjos, contudo não fiquem com a ideia de Cronin ter virado um cantor pop com os olhos postos nos tops, a sua música embora acessível talvez figurasse na MTV da década de 90 aquando da euforia grunge e o rock alternativo era a nova mina a explorar.

Dividido em duas partes, "MCIII" apresenta na face A algumas das canções mais apelativas que Cronin já compôs, trilhando terrenos próximos aos Lemonheads, Built To Spill, Rogue Wave, The Shins e a pop californiana dos anos 60. Temas como "Made My Mind Up" ou "Feel Like" são exemplos máximos da sua mestria combinando refrões orelhudos, guitarras acústicas e distorcidas, violinos flutuantes e uma voz adocicada. O lado B consiste num relato sobre uma fase da sua vida aquando adolescente em que teve de se mudar para outra zona do mapa americano e os sentimentos que daí advieram, num relato deveras sincero em seis andamentos. Mais rebuscada, esta face apresenta temas ora "rockeiros" ("Gold", "Ready"), baladas com piano, cordas e sopro a sobressair ( "Alone", "Different") ou mais acústicos ("Circle", "Control").

Cronin estabelece-se definitivamente ao terceiro álbum como um músico a merecer os rasgados elogios que tem granjeado junto da critica especializada, mas acima de tudo, é já um nome com créditos firmados numa discografia exemplar.



terça-feira, maio 05, 2015

Metz - "II"


O power-trio canadiano retorna às lides discográficas após o explosivo disco de estreia editado em 2012 com direito a duas passagens por Portugal que não descolarão tão cedo da memória de quem assistiu. O novo registo simplesmente intitulado "II" não se desvia da avalanche sonora trilhada inicialmente: a guitarra continua a soar a um enxame de abelhas dentro de uma centrifugadora, o baixo não dá tréguas, a bateria tenta suplantar os restantes instrumentos e as vocalizações são basicamente um berreiro descontrolado, resumindo, isto é noise-rock com uma forte costela hardcore cujo alvo é abalar a estrutura óssea do ouvinte e colocar os seus tímpanos a sangrar!

Para além da referência aos Pixies, Big Black e Nirvana (fase Bleach) os Metz recuperam aquele indie-rock dos 90, repleto de suor, ruído, gritaria, violência e sujidade explorado por inúmeras bandas como os Unwound, Jesus Lizard, Unsane ou os colegas de editora Pissed Jeans. De fato os seus registos remetem para essa época dourada do rock alternativo ainda com um forte cunho "underground", e aí reside a sua popularidade, quiçá porque muita gente não se revê neste universo no qual as bandas andam de mãos dadas com o "mainstream", guiam-se pelo que está "in", esmeram-se nas produções mais limpinhas e no visual a condizer com o momento e num abrir e fechar de olhos já estão "out", ou seja, de alternativo possuem muito pouco.

Em apenas meia-hora os Metz sacodem o ouvinte de uma forma que muitos deixaram de estar habituados e uma geração mais nova é empurrada contra a parede questionando-se de onde saiu este tornado sonoro. Podemos afirmar que não descortinamos diferenças entre os dois álbuns, que a banda não se esforçou em mudar algo na sua sonoridade, mas este é daqueles casos em que a velha máxima "em equipa que ganha não se mexe" faz todo o sentido.

sexta-feira, maio 01, 2015

sexta-feira, abril 24, 2015

Built To Spill - "Untethered Moon"


Veteranos do panorama indie-rock americano, os Built To Spill liderados por Doug Martsch, regressam às edições discográficas seis anos após "There Is No Enemy", um disco que a meu ver indiciava alguma falta de criatividade e um certo esgotamento da fórmula sonora encetada em inícios da década de 90.

Muitos ficaram surpreendidos com o retorno dos Built To Spill tendo em conta algumas afirmações de Martsch no sentido de alguma desorientação e cansaço, no entanto a banda sofreu uma remodelação e "Untethered Moon" espelha bem essa mudança, de tal forma que sou levado a creditar este novo disco como o seu melhor desde o impactante "Keep It Like a Secret" datado de 1999.

A nível sonoro não detetamos alterações de maior, o cruzamento entre Neil Young e Dinosaur Jr. continua bem patente, assim como as guitarras em força com solos inspirados contrabalançados com a voz melodiosa de Martsch que em "Never Be The Same" aproxima-se do território dos The Shins e Rogue Wave. O que diferencia este disco dos restantes editados este século assenta num maior pendor melódico em detrimento dos extensos solos, mais pop se preferirem, e composições mais inspiradas e positivas, a expor um Doug Martsch  de bem com a vida e um espirito renovado na sua música.



terça-feira, abril 14, 2015

The Lucid Dream - "The Lucid Dream"




Com sete anos de existência, os The Lucid Dream têm vindo a trilhar o seu caminho de uma forma segura e com o recente homónimo segundo álbum, revelam que são mais do que uma banda da nova fornada psicadélica forçando as barreiras do género para criar uma sonoridade que não se acomoda com os tiques desta vaga.

"The Lucid Dream" abre as hostilidades com o extenso instrumental "Mona Lisa", uma viagem vertiginosa repleta de efeitos com uma dinâmica criativa. Segue-se "Cold Killer", faixa poderosa que os Crocodiles ou os The Vacant Lots não desdenhariam serem os autores. "Darkest Day/ Head Musik" é composta a dois tempos, uma abertura na linha dos Spectrum que evolui para uma explosão sónica ao estilo dos White Hills. Aceleramos a bom ritmo com "Moonstruck" um cruzamento entre as Electrelane e os My Bloody Valentine para abrandar pouco depois com "Unchained Dub", com a banda a exibir a sua devoção para com este estilo mas à sua maneira. "Unchained" é a faixa mais acessível com uma piscadela de olho ao psych-pop da década de 60. A finalizar temos o mantra hipnótico de "Morning Breeze" com distorção a rodos balanceado por uma parte mais atmosférica a lembrar os Verve, Spacemen 3 e Spiritualized. Por último "You & I" poderia ser a faixa de encerramento de um disco dos Warlocks com uma cadência mais lânguida mas sempre com um forte cunho psicadélico presente.

Após ter visto a banda em 2013 ainda o álbum de estreia "Songs of Lies and Deceit" não tinha sido editado, é com grande expetativa que anseio o concerto dos The Lucid Dream na primeira edição do Indouro Fest, no qual decerto irão tocar vários temas deste cativante disco.

Post-Punk Mixtape

Edu (Mouco) & Ex Lion Tamer apresentam o primeiro volume da post-punk mixtape. Uma seleção sobre um período da história musical cuja influência perdura ainda nos dias de hoje. Enjoy!